Foi no final dos anos 70 do século passado. Bastava ver a caminhoneta com o logotipo da nossa firma passar do outro lado da avenida Ismael Alonso em direção à rotatória, antes de fazer o contorno e encostar defronte o escritório da empresa de construções (Civitécnica) que eu tinha com um sócio, o Vital Paiva, para o Paulão Hernandes (que à época ainda era estudante de engenharia e nosso estagiário) começar a cantarolar o tema musical do Superman. Era o sinal sonoro que anunciava que o “sêo” Caetano Maranha estava chegando.
Como encarregado de obras da firma, ele aparecia geralmente para discutir detalhes da construção com o Vital, calculista de estruturas e responsável pela execução das obras que eu costumava projetar a arquitetura. Findo o trabalho, após repassar minuciosamente detalhes de ferragens, vigas e pilares, um café era servido e começava a conversação fiada, que eu, o Luiz Antônio Pereira (ainda estudante de arquitetura) e o Paulão ficávamos aguardando. Eram histórias saborosas em que o “Capitão Maranha”, como a gente o chamava, estava envolvido, para nós uma espécie de super-herói, em obras e construções complexas e em lugares distantes onde ele tinha vivido.
Para tudo ele tinha uma solução imaginosa e eficiente, um jeito diferente de montar o madeiramento ou o escoramento da estrutura de concreto armado, uma montagem da ferragem mais rápida (naquela época ainda não havia empresas montadoras como hoje), uma concretagem mais segura e eficiente. Ele era o rei da goiva, do martelo, da serra, sabia tudo de carpintaria e marcenaria, como tratar a madeira que ainda era trazida em toras do norte do país, sem qualquer preocupação com sustentabilidade ecológica.
Era de uma estirpe de homens, como do meu tio Juca Leite, que foram se acabando, que tinham completo domínio das técnicas manuais na construção civil. O ensino da engenharia e arquitetura enveredou por um caminho esquisito, do uso intensivo de ferramentas eletrônicas, mas com nenhuma presença no canteiro de obras, que entendo fundamental para que os profissionais do ambiente construído possam garantir a qualidade do projeto e da obra. É provável que um dos motivos que tenham me levado à arquitetura, além do gosto pela arte de planejar e construir foi ver meu tio Juca construindo o prédio do curtume do meu pai, eu era um menino e ficava horas lá vendo-o erguer as paredes, tijolo por tijolo.
Durou pouco minha carreira como empresário da construção, o Vital foi embora para Ribeirão Preto e eu preferi virar arquiteto autônomo e fazer carreira universitária. Mas as lições do homem jovial, brincalhão e enérgico ao mesmo tempo, comprometido com o trabalho (inclusive voluntário, era vicentino), o grande “Capitão Maranha”, permanecem vivas em nossas lembranças, sempre que encontro o Paulão, recordamos um dos construtores desta cidade. Este sim merecia um tributo.