Manhã fria de junho, casa de avós. Casal sentado à mesa, pãozinho quente, café, manteiga e jornal nas mãos
O homem comenta, voltando-se para ela: ‘O Cirque du Soleil voltará final de setembro a São Paulo. Será que os meninos nos emprestam as meninas, para a gente ir vê-lo?’ Por meninos, entenda-se dois filhos, com mais de trinta (e respectivas esposas); por meninas, três netas: Luísa, dez anos, Clara e Maria Fernanda, de sete. (São quatro netas, porém a mais nova delas, Marina - três anos - não tem autonomia para viagens longas: seu aval cobre apenas distâncias inferiores a cinco quilômetros.)
Decidem postergar a consulta de permissão para o passeio com as netas aos filhos e noras, para quando a data do espetáculo estiver no limite. Compram os ingressos e os guardam. Consideram jóias, os bilhetes; preciosidade, o momento em que viajarão sozinhos, pela primeira vez, com as três meninas. Se os pais permitirem. No meio de setembro, frio na barriga. Chegou o dia da consulta. Para surpresa de ambos, foi mais fácil que imaginavam. Pesou um bocado no consentimento, a notícia da inclusão do jovem tio, na equipe de segurança dos três tesouros.
Fim do mês, manhã de sábado, hora da partida da excursão. Tácito desafio a qualquer manual de logística, primeiro deviam acomodar as bagagens no porta-malas. Três meninas nem tão grandes assim. Três malas de tamanho médio; oito saquinhos de TNT, com etiquetas especificando os conteúdos: ‘roupas íntimas’, nécessaire, remédios; três sacolas com cinco pares de sapatos cada e dois pares de botas soltos, que não couberam nas sacolas: importantíssimos, precisavam ir. Travesseiros, cobertores. Livros e revistas. Barbies e acessórios. O aparelho de inalação, bolsinha com dinheiro. Bolsinhas de mão com celular. Sacolinha com roupas do avô, sacolinha com troquinha de roupas da avó. Qual princesas, acomodaram-se no banco de trás, bem sentadas e cintadas.
O avô ganhou espaço suficiente, livre para as longas pernas; celular, carteira, moedas, caixa de óculos no box ao lado do banco. A avó, co-piloto, acomodou no piso, ao lado do tornozelo direito, a geladeirinha com caçulinhas, coquinhas, suquinhos e água de coco. Equilibrando-se sobre a caixa, cesta com sanduíches, biscoitos de polvilho, rosquinhas, sequilhos e recipiente térmico com bananas, uvas e peras. Pacote de guardanapos. Pegou sua bolsa de mão: ‘precisa mesmo dela?’ ainda teve que ouvir. Contrariando conteúdo e continência, a bolsa foi sob o banco. Um custo tirá-la a cada parada. Pegaram os documentos das meninas. No último minuto, lembrou dos filmes Sossega-leão. Pegou-os. E foram embora. Tudo isso para voltar no dia seguinte.
Pararam várias vezes: xixis de meninas não são sincronizados. Na viagem, Luísa, a mais velha, quieta, ensimesmada nos meandros dos pensamentos que só meninas de dez anos possuem. Clara e Maria Fernanda, falaram o tempo todo. De repente, Clara riu bem alto, gargalhada que só meninas de sete anos sabem dar: ‘O que é? pergunta a avó’. ‘Nada, não vovó. É felicidade.’ Maria Fernanda questiona o filme que assistem: é chato, quer trocar. Mas ela o escolhera - as duas chiam. Emburra. Dali a pouco, quando as outras conversam baixinho e decidem atendê-la, ela diz: ‘Tá bom, tá bom, mas quando terminar a gente põe esse aqui, tá?’ ‘Tá bom’, as outras concordam. Futuramente poderão ser chamadas para resolver a briga entre Israel, Palestina e Jordânia.
Tinha esquecido como é bom ter criança no colo durante espetáculo circense, fazendo perguntas sobre o palhaço, o trapezista e o mágico. Nem me lembrava mais da delícia que é abraçar e proteger criança que fecha os olhos com medo do malabarista despencar e que esconde o rosto no pescoço da gente. Não sabia que ainda corria tão depressa para levar criança ao banheiro, que se diz ‘apertadíssima’ e ameaça ‘não vai dar tempo’. Estou de molho e exausta. Se gargalhar bem alto, sem mais nem menos, pedi aos familiares que não se impressionem. É só felicidade.
MULHER
‘No decorrer deste século, a brasileira se despiu. O nu – na tevê, nas revistas e nas praias – incentivou o corpo a se desvelar em público. A solução foi cobri-lo de creme, colágeno e silicone. O corpo se tornou fonte inesgotável de ansiedade e frustração. Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho. É uma nova forma de submissão feminina. Não em relação aos pais, irmãos, maridos ou chefes, mas à mídia. Não vemos mulheres liberadas se submeterem a regimes drásticos para caber no tamanho 38? Não as vemos se desfigurar com as sucessivas cirurgias plásticas, se negando a envelhecer com serenidade? Se as mulheres orientais ficam trancadas em haréns, as ocidentais têm outra prisão: a imagem.’ (Mary Del Priore)
PROMESSA
O prefeito Sidnei Rocha merece aplausos calorosos pelo trabalho realizado em Franca. A cidade recuperou quase totalmente a qualidade que possuía antes do desastroso governo de oito anos anterior ao dele. No entanto, é preciso cobrar o propósito de recuperar o prédio do Museu Municipal. A visitação ao local é grande, há interesse dos cidadãos pela memória da cidade, há curiosidade de visitantes. Torço para que se lembre de fazer as reformas solicitadas. E prometidas.
MORTES
A estatística de mortes decorrentes de acidentes de trânsito – a observar o caótico fluxo da frota francana, atitudes irresponsáveis de motoristas e desobediência dos pedestres – faz concluir que somos protegidos do Divino. Era para ser muito maior o saldo de vítimas. Raros motoristas obedecem limites de velocidade. Raríssimos os que não ultrapassam pela direita ou reconhecem o uso das três faixas desenhadas no chão. Pouquíssimos pedestres atravessam na faixa adequada.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br