Já de algum tempo sustento que Chico Anysio é, sem dúvida, o mais completo ator da teledramaturgia brasileira, especialmente na comédia, onde, ao longo dessas últimas décadas, encarnou diversos personagens, todos amplamente conhecidos e reconhecidos pelo público telespectador.
No ano em que ele completa 80 anos e que passou por graves problemas de saúde, o “Fantástico” da Rede Globo apresentou uma admirável entrevista com Chico, oportunidade em que ele pode abrir o seu coração.
Falou de sua infância difícil no nordeste brasileiro, especialmente quando seu pai, após perder tudo em um incêndio, foi obrigado a mandar toda a família para o Rio de Janeiro, totalmente ‘sem lenço e sem documento’.
Chico contou como entrou, ocasionalmente, no universo artístico, embora tudo se encaminhasse para ele se tornar um advogado de sucesso. Falou dos seus relacionamentos amorosos, dos filhos, netos e especialmente da morte que considera próxima. Afirmou não temê-la, mas sente pena de morrer, pois assim não poderá acompanhar o crescimento dos netos.
Revelou também ser um homem sem medo de mudar de opinião, citando frase de Pascal: ‘não me envergonho de mudar de idéia porque não me envergonho de pensar’. Porém o ponto alto da entrevista foi quando ele reconheceu que todo humorista é insubstituível, pois para ele nunca teremos outro Grande Otelo, Francisco Milano, Mussum, Zacarias, Oscarito, Rogério Cardoso, dentre outros. Para Chico toda vez que morre um humorista, o humor fica pobre e, paradoxalmente, triste.
Chico Anysio não se notabiliza apenas na comédia. Transita também - e com muito sucesso - em novelas e no cinema. É também compositor de músicas de sucesso, é autor de livros premiados e comentarista de futebol, essa última atividade, em minha opinião, a única onde ele não se houve muito bem.
Tenho a convicção que se Chico Anysio tivesse nascido nos Estados Unidos, certamente teria se tornado um astro internacional reconhecido e admirado em todo o planeta.
Assim como Vinícius de Moraes, se casou várias vezes. De todos os relacionamentos, talvez o mais público e também o mais tumultuado tenha sido o com a ex-ministra Zélia Cardoso, mentora intelectual do Plano Collor. Com ela, teve um casal de filhos.
Dos vários personagens encenados por Anysio, o mais conhecido e que mais tempo ficou no ar, foi o do professor da ‘Escolinha do Professor Raimundo’. O programa iniciou no rádio e depois migrou para a televisão. Todos os abnegados professores do Brasil, de alguma forma se identificam com o professor Raimundo e sua árdua tarefa de tentar instruir pessoas totalmente desinteressadas e descompromissadas com o aprendizado, recebendo salários defasados. Ainda hoje me delicio com os episódios da ‘Escolinha’, reprisados pelo canal de TV fechada Viva.
Enfim, Chico Anysio consegue – felizmente, para o povo brasileiro – tornar a nossa vida mais feliz, mesmo porque: ‘rir faz muito bem à saúde’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca