20 de março de 2026

O que aconteceu?


| Tempo de leitura: 4 min

Morava no fim da Saldanha Marinho, rua que nem pavimentada era. A casa não tinha calçada. Era minúscula construção de dois quartos, salinha de visitas, copa, cozinha e banheiro. Um banheiro, só

Em compensação, tinha banheira. Do outro lado da rua, na esquina, construíram casa bacana. Três quartos, banheiro, sala grande, sala de jantar, cozinha. Minha casa era mais bonita: tinha cerca de ripas de madeira (meu pai quem fez). Sobre ela corria a trepadeira amor-agarradinho que, pensando bem, era homenagem ao amor dos meus pais. Vivia cheia de cachinhos cor-de-rosa. Primeira ampliação: no fundo da casa construiu-se caramanchão (pilares de madeira), telhado de zinco. Sobre ele, esparramou-se outra trepadeira, não lembro o nome. No telhado, furos por onde passavam raios de luar e brilho das estrelas para minha mãe pisar, distraída. Mais tarde, a casa foi ampliada. No lugar da cozinhazinha, posta abaixo, construiu-se quarto para meu irmão. Na parte externa, depois do caramanchão, fundo do terreiro, desmanchou-se o galinheiro e anexaram três cômodos: banheiro, outro quarto e cozinha. Estávamos nababescamente instalados. A casa era sempre pintada de branco: poeira, e meu pai quem se fazia de dublê de pintor.

Não tínhamos computador, ai-póde, ai-péde, ai-fái, celular, cocacola ou guaraná. Telefone demorou. Tínhamos máquina de escrever, que guardei. As netas acharam-na dia desses, abriram a caixa, arregalaram os olhos e perguntaram: ‘Vó, o que é isso?’ Nem perceberam a ligeira semelhança com o teclado do computador. Líamos muito. Quando conseguíamos, até gibis – Capitão Marvel, Tarzan, Disney, Fantasma, Flecha Ligeira e Mandrake, de quem eu queria ser a amada – a misteriosa Narda de Cockaigne – sempre tive ligeira queda pelo romantismo. Não consegui conciliar desejos e expectativas: meu herói favorito era Flash Gordon e, nas brincadeiras, quando imitávamos os filmes de faroeste, era quase sempre escalada para namorada do bandido. Versatilidade e tendência, nunca me faltaram.

Papai não tinha carro, tinha bicicleta, veículo com o qual nos levava à escola, bem distante. Como nos acomodava, não sei – aposto que ficava parecendo cena de circo. Lembro do seu assovio, enquanto fazia esforço para pedalar. Na escola, dona Celeida, dona Noquinha e dona Laura nos esperavam. Embora bravas, meus pais nunca reclamaram delas para o diretor. Crianças podem ser sádicas e colegas, impiedosos. Meu irmão nasceu com atrofia de músculo facial e eles faziam referências ao evidente defeito da boca, apelidando-o de forma grosseira e rude. Hoje isso tem nome, mas naquele tempo não. Cresceu, superou, é feliz. Papai e mamãe avisavam que tomássemos cuidado, que o mundo estava cheio de gente má, que abusava de crianças, sem nunca terem especificado o que era isso. Corremos perigo, sim. Porém tomamos muito mais cuidado, que provocamos situação de risco.

Quando papai ou mamãe mandavam entrar, a gente espumava, não questionava. Não tinha argumentação, nem ouviam os resmungos – ou faziam de conta que não ouviam. Punham a gente na frente da mangueira de água fria, davam primeira mão de faxina com sabão de cinzas e bucha, depois, direto para o banheiro, para o segundo banho, com sabonete. Não tinha xampu, nem condicionador sem sal ou com figurinha. Machucados eram curados com mercurocromo. A água levada para o quarto era torneiral – gasosa, só quando o médico prescrevia. Tínhamos penico. O Olhar 43 era o da minha mãe e significava: ‘já para a cama’! O Olhar 52 era o do meu pai. No caso de sumiço, ou irmos à casa de alguém sem avisar, ao nos localizar, diante dos estranhos só nos olhava. O olhar chispava: ‘você vai ver, quando chegarmos em casa’. (Foi a primeira vez que desejei ir à China. A pé.)

Lembro, penso, analiso, comparo, confronto, cotejo, observo, critico, deixo as lembranças fluírem, ponho-as em paralelo. Não concluo. O que aconteceu, que o número de crianças infelizes que têm tudo cresceu tanto?

JUSTIÇA
‘O INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) se prepara para cobrar do motorista infrator os valores que forem gastos com o pagamento de benefícios previdenciários para as vítimas de acidentes. A AGU (Advocacia Geral da União) entrará com ações na Justiça exigindo o ressarcimento para os cofres públicos dos valores gastos com pensão, auxílio-doença e aposentadoria por invalidez.’ (Paulo Muzzolon, Folha)

MINEIRICES
Mineiro não chama a polícia, chama ‘uzômi’. Mineiro não sente agonia, ‘sente gastura’. Não pergunta ‘como vai?’; diz ‘ cumé cocê tá?’. Não liga o pisca: ‘dá seta’; não para no semáforo, para ‘no sinal’. Para o mineiro, as coisas não estragam, ‘tão ruim’. Não come pão francês, come ‘pão de sal’. Não chupa ‘tangerina’, só ‘mixirica’. Não acha alguns alimentos ‘sem açúcar’, mas ‘sem doce’. Mineiro não ‘lava com esponja’, só com ‘bucha’; não diz ‘lagartixa, diz ‘taruíra’. Não fala ‘estourar’, diz ‘pocar’. (Internet)

LIVRO
Se cair em suas mãos, não deixe de ler: Terramarear, de Ruy Castro e Heloísa Seixas. Companhia das Letras. Se não cair, procure. Se você gosta de viajar, vai adorar. Se não gosta, é bem escrito. Se tem bom humor, vai rir. Se não tem, vai rir assim mesmo.

RAZÕES
Não vou ao cinema em Franca porque odeio filme dublado. E o áudio dos nacionais, eu não entendo. Os frequentadores dos cinemas em Franca, dizem eles, só vão porque os filmes são dublados. E os nacionais, deve ser para ver as figurinhas.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br