Nossa indústria cafeeira é mais antiga que a calçadista. Franca e região cresceram primeiro em torno dos cafezais. Com o passar do tempo, porém, o calçado tomou a dianteira, a qual não perdeu até hoje.
Muitos fatores contribuíram para isso. O desenvolvimento da indústria brasileira a partir da década de 1930, em sintonia com nosso rápido processo de urbanização, sem dúvida, foi um dos principais. No entanto, as questões culturais que permeiam a inércia de nossos produtores não podem ser descartadas.
Durante anos, nossos cafezais ficaram abandonados à própria sorte. Satisfeitos com os resultados até então obtidos, nossos produtores aparentemente se acomodaram. Indiferentes às transformações que impactaram a sociedade nesses últimos 70 anos, eles não perceberam as mudanças do mercado e o surgimento de novos comportamentos e exigências por parte dos consumidores, ou pelo menos não se importaram com elas.
Não valorizaramo fato, por exemplo, que a urbanização da sociedade e a internacionalização dos mercados propiciaram o surgimento de nichos diferenciados, muitos deles dispostos a pagar mais por um café de sabor diferenciado. Em paralelo, também não assimilaram para a produçaõ as modernas tecnologias de tratamento, plantio e manuseio desse produto, fundamentais para essa diferenciação cada vez mais solicitada por esses nichos.
Dessa forma, nosso café foi perdendo espaço no cenário internacional, esquecido no mundo das ‘commodities’. A Colômbia, com uma política mais aguerrida, com investimentos mais precisos em qualidade e marketing, superou-nos no mercado internacional e tornou-se por algum tempo o maior produtor e exportador mundial de café.
Nesses últimos meses, no entanto, o céu parece estar mais azul para nossa indústria cafeeira. Reportagem publicada pelo Comércio na terça-feira, 27/09, mostra que nunca exportamos tanto café. Se considerado o mesmo período do ano passado, o volume exportado é 83% maior.
Porém, esse bom desempenho não advém apenas de nossas boas práticas empresariais. Infelizmente, ele está mais ligado à quebra da produção colombiana. Apesar de alguns de nossos produtores já terem ‘acordado’ para a produção dos cafés especiais, muito mais rentáveis e com inquestionável superioridade em termos de força de marca, vários outros ainda resistem aos necessários investimentos para se enfrentar as exigências e restrições impostas pelos organismos internacionais responsáveis pela certificação desses cafés especiais.
De qualquer forma, é válido comemorar, ainda que com moderação. Se não aproveitarmos o momento para intensificar os investimentos necessários para a projeção da marca ‘Café do Brasil’ no mercado internacional, com a presença maciça de cafés especiais, talvez voltemos a perder as oportunidades que esse bom momento está nos propiciando.
É importante lembrar que a tendência em todos os setores da economia globalizada é a de ‘comoditização’. As melhores margens e os lucros mais vultosos, porém, estão ligados aos produtos diferenciados.