08 de julho de 2026

Chamem Robin Hood!


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Somos cheios de florestas. Temos até a maior do mundo, mas não temos Sherwood. Também não temos um príncipe John, sôfrego cobrador de impostos. Restaram-nos apenas autoridades mais mundanas, mas nem por isso menos sôfregas. Do enredo original de Robin Hood, o príncipe dos ladrões, sobrou apenas o ‘leão’, agora não mais preso ao nobre coração do rei Ricardo, mas solto e faminto, livre pelos corredores de nossa equipada e competente Receita Federal.

É uma pena. A julgar pelos impostos que não apenas os francanos, mas também todos os brasileiros estão pagando, um Robin Hood por aqui não seria de todo ruim. Teríamos apenas que armá-lo de forma diferente. Ao invés do arco e flecha, lições intensas de direito e contabilidade, um bom computador e muita paciência.

Assim equipado, mesmo que mantivesse seu ‘hood’ (tipo de chapéu com pena), talvez pudesse nos ajudar a entender e a enfrentar a pesada carga de impostos que recai sobre nossos parcos rendimentos. Um olhar estrangeiro, não apenas de país, mas também de época, quem sabe não conseguiria desvendar os mistérios que permeiam tantas siglas e as fazem funcionar cumulativamente sobre produtos e serviços, criando um sistema tributário agressivo e ineficiente, que contém mais de 80 tributos, pesa mais sobre o trabalho e a produção do que sobre o patrimônio, gera desigualdades entre os contribuintes, atrapalha o crescimento do país e produz uma legislação confusa, contraditória e complexa, até mesmo para os especialistas.

Quem sabe, com sua habilidade de herói, Robin Hood não conseguiria nos explicar porque pagamos até quatro tipos de impostos para circular por uma rodovia. Pagamos um valor alto e galopante de pedágio, a CIDE (Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico), um imposto que incide sobre combustíveis, o ICMS sobre mercadorias e fretes (embutido nos preços de cada um dos produtos adquiridos e nos combustíveis) e o IPVA que é pago sobre a propriedade do veículo.

Porém, a despeito do esforço, nem Robin Hood conseguiria explicar como o Brasil conseguiu aumentar a carga de impostos em cinco pontos percentuais do PIB nos últimos dez anos, o que significa atingir uma carga tributária mais pesada que países como EUA, Canadá e Espanha, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. Em uma espécie de efeito Robin Hood às avessas, de 2001 a 2011 o governo tirou da sociedade cerca de R$ 1,850 trilhão.

Mas, infelizmente, Robin Hood não passa de uma lenda. Pode até servir para nos aliviar a raiva no sossego da TV, mas em nada mudará a realidade concreta dessa relação historicamente desequilibrada, em que um Estado caro e ineficiente avança sobre os bolsos de seus cidadãos e devolve quase nada, caprichando apenas nos momentos de promessas e discursos.