Música, depois de trilhada pelos afetos, é marca indelével. É começar a ouvir algumas notas de uma canção para vir uma manada de sensações galopantes, fogos-artifícios de lembranças, em rapidez de cometas, todas as estrelas do sentir, cadentes, no ritmo da melodia.
Comprei um CD de choros, e vi minha mãe dançando com meu pai, ouvi os mais velhos conversando na calçada, a cidade em “black-out”, risadas e gritinhos de crianças, uma lua imensa, o céu sarapintado de luzes, vaga-lumes, um sossego pontilhado de olhares e sorrisos, e vozes arrastadas, em uma maré de palavras.
Choro é música brasileira, muito! Minha mãe tinha uma voz pequenina em extensão, mas bastante afinada. Fazia, muito bem, a segunda voz, envolvendo a primeira voz em acordes harmônicos, deixando o som total gordinho, aveludado, temperado. Cantava chorinhos, às vezes acompanhando o rádio, com letras e sem letras, na base do lá-rá-lá. Ou hum-hum-hum. Sempre modulando o tema em segunda voz.
O que ela fazia, eu traduzia para minha menina percepção, era um tipo de sombra que refrescava a melodia. Esquisito falar assim, sombra na voz, mas tem muito sentido para mim. A voz primeira tem uma espécie de timbre linear, e a segunda voz parece uma linha curva, oscilante, em sobe- desce, alinhavando, seguindo o fio da primeira, mas sem se misturar com ela. Dá um som que não é nem igual à primeira, nem igual à segunda.
Procurei um lugar para ouvir choro na Lapa, no Rio de Janeiro. Não encontrei, ainda. Choro, chorinho. Nome mais que perfeito para um ritmo cadente, cadenciado, candente, que escorre feito um rio de lágrimas no rosto da gente. Mas são lágrimas alegres, não formam rio caudaloso. Um rio filete, riozinho morno e salgado, que molha os olhos de ternura, nem melancolia, nem alegria saltitante, algo entre doce tristeza e alegria quieta. Ternura que vem dos acordes virtuosos do violão de sete cordas, o violão, bandolim (ai que delícia o bandolim!), flauta, cavaquinho e pandeiro.
O gênero musical choro é considerado a primeira música popular urbana típica do Brasil, de difícil execução, caracterizado por sutis modulações, por virtuosismo e improviso dos participantes, que precisam ter muito estudo e técnica, ou pleno domínio dos instrumentos. O maestro Villa Lobos tem chorinhos no seu repertório, foi nosso grande chorão.
Ouvi, de repente, chorinhos embalados pela voz-sombra, voz-penumbra, voz misteriosa daquela que, de modo misterioso, deixou intocados (em algum canto encantado) outros chorinhos, alguns risos, muitas surpresas e ignorâncias e, talvez, alguns afogamentos. Descobertas do meu coração chorão, de menina que improvisa, sem estudo nem técnica, nem sempre com o domínio completo do seu instrumento.