20 de março de 2026

Feridas diárias


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Narciso hoje mora em Roma, na Galleria Nazionale d’Arte Antica

Claro, o Narciso de Caravaggio. O do mito mora na minha casa, na sua, onde haja mínimo espaço para se acomodar e espelho para se admirar. Dizem as más línguas da mitologia grega que Eco, ninfa graciosa e bela, se apaixonou - em vão - por Narciso, jovem duplamente famoso pela beleza e pelo orgulho. Sem nunca ter-se olhado - o oráculo Tirésias o proibira sob pena de morrer - ‘achava-se’ (lindo, charmoso, inteligente, imortal, fantástico, poderoso, gostoso, chique, elegante etc).

Eco, rejeitada por ele, definhou à morte. As moças desprezadas por Narciso, horrorizadas com a insensibilidade do belo rapaz, pediram que os deuses o punissem. Certo dia, ao voltar da caçada, com sede, Narciso debruçou-se numa fonte para beber água. Viu sua face refletida, quedou-se apaixonado por aquela maravilhosa figura, que era a dele. Na auto-contemplação ininterrupta, consumiu-se até morrer. No seu lugar ficou uma flor, batizada com seu nome. (Narcisismo, nasceu de Narciso e ambos de narke, palavra grega que significa entorpecido, de onde vem, também palavra e significado de narcótico.)

Embora símbolo e personificação da vaidade e insensibilidade, do orgulho e da inacessibilidade, Narciso é referência para mostrar a profundidade do momento sublime em que o indivíduo toma consciência de si, ao mesmo tempo em que consegue se enxergar sob a perspectiva do olhar do outro e se percebe existir além e isento de quaisquer adjetivos. Mais: que prescinde deles para continuar existindo. Que ele é apenas (embora lindamente) um ser. Momento de dor essa derrocada da soberba, momento que machuca e fere.

Três grandes acontecimentos arranharam o ego da humanidade com tal força e profundidade, que são considerados feridas. Que jamais cicatrizaram. A primeira delas foi o golpe desferido na nossa vaidade por Copérnico, em 1543. Quando era certo ser a Terra o centro do universo, ele destrói os sonhos de grandeza do homem ao afirmar que não. Não era a Terra. Era o Sol. 1859, Charles Darwin publica A Origem das Espécies. No seu conteúdo, a segunda revelação que fere os brios do Homem. Filhos de Deus, que nada! Somos filhos do macaco! A doce idealização de Adão e Eva no Paraíso, Pecado Original, Anjos Caídos, Éden, vai para o álbum Doces Sonhos. Nossa tataravó não era mais aquela moça de longos cabelos e folha de uva a cobrir-lhe as vergonhas. Era a orangotanga, na melhor das hipóteses - no caso de termos algum pedigree. Na pior, seria a Chita, mesmo.

Já maltrapilhos e maltratados pelas revelações, ainda nos aguardava um terceiro golpe, esse para arrebentar nosso orgulho e prepotência de vez. Veio não pela pena dele, mas revelada no divã de Freud. Não somos os donos de nós mesmos. Nem mandamos em nós. Quem determina e comanda o como somos, nos obriga a fazer o que fazemos, nos impele a agir como agimos, é o nosso inconsciente. Ao qual não temos acesso. A humanidade teve o beneplácito de séculos entre um baque e outro; individualmente não temos tempo. Todo dia, a todo instante somos feridos no nosso orgulho, vaidade e prepotência. Macro e micro feridas: a impotência diante de fenômenos como a morte; a ignorância dos sentimentos ou desejos dos que amamos e a incapacidade de nos fazermos compreender pelo próximo: feridas diárias de difícil cicatrização. Não. Não é fácil viver.

DÚVIDAS
Atriz, na revista de variedades: ‘Não vejo motivo para casar.’ Declaração dada quando estava prestes a viajar em ‘lua de mel’. Fala, também, do ‘namoro’ com o ator com quem ‘mora junto’. Ué. Quem ‘mora junto’ não está casado? Lua de mel não é a viagem de quem recém se casou?

MULTA
Noivas em Joinville (SC) não atrasam. Quando marcam o casamento, elas deixam com o padre um cheque caução, nominal para a igreja. Cinco minutos de atraso e elas o perdem, sem chance para reclamar: o que é combinado, não é caro. Bom para elas, ótimo para os convidados. A pontualidade é sempre um sinal de boa educação e consideração para com o próximo.

SORTE
Argumentação do vendedor de bilhetes de loteria: ‘Compra, moça, os bilhetes! Olha só: o número deles é o mesmo que está na camisa do seu marido. (Como ele enxergou os minúsculos números no bordado do bolso da camisa é um mistério.) É um sinal, não é? Depois, olha o número da mesa que você ocupa: tem os dois dígitos finais, não tem? (Sobre o número da mesa tinha garrafa de cerveja, copos e prato de pastéis. Como ele viu, é outro mistério.) O que pesou, foi o final: ‘Compra, porque duas coisas o homem não sabe: o dia da sorte e o dia da morte.’

JANE
Fãs de literatura inglesa redescobriram Jane Austen (www.janeausten.co.uk). Interessados, procurem no site informações e curiosidades sobre ela e Bath, cidade onde morou, distante duas horas de trem de Londres. No caso de ir lá, bom ficar dois dias inteiros. Visitas imperdíveis: Balneário, Museum of Costume, Circus, Centro Jane Austen. Idem, o tour pelo Avon Canal, inesquecível na Primavera. Na volta, parar em Stonehenge.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br