No dia 8 deste mês, por volta das 6 horas da manhã, morreu em sua casa, no bairro São José, o conhecido médico clínico geral e fisiatra Aníbal Vilela Moreira, aos 70 anos. Foi acometido de parada cardiorrespiratória, consequência do enfisema pulmonar que o acompanhou na maior parte de sua vida de fumante inveterado.
Na madrugada daquele dia, como vinha acontecendo há muito tempo, recebeu a visita do amigo vigilante noturno José Alexandre – que atua há anos da região do bairro São José onde se localiza sua casa – para ajudá-lo a deitar-se.
Aníbal, de 5 anos para cá, tornou-se um recluso por livre iniciativa. Queria afastar-se da bebida e, segundo sua mulher, Regina Célia de Lima, levou isso às últimas consequências. “Deixou de sair e manteve-se em casa. Estava feliz pelos resultados, mas continuou fumando. Foi o enfisema que o levou”. Era natural de Pedregulho. Em Franca, realizou estudos fundamentais e médios. Formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto. Sua vida, como profissional, é retratada por competência. Também, por autoridades que lidaram com promoção social na cidade, como “dedicada a quem não tinha posses”. São conhecidas suas ações de compra de medicamentos para pacientes que não tinham condições de aviarem suas receitas.
Casou-se, em 1967, com Célia Barrancos Moreira. Tiveram 1 filho (Marcelo, médico de cabeça e pescoço, residente em Goiânia, casado com Ana Beatriz) e uma neta, Ana Beatriz. No mesmo ano, como médico, conheceu, no hospital onde atuava, bebê abandonado pela mãe. Interessou-se pelo caso. Em 1970, com a mulher, adotou Wilson Brandino de Alencar, conhecido por Chico, então com 3 anos e que hoje reside em Florianópolis (SC). Ficou viúvo em 1976. Em 1977, casou-se com Regina Célia de Lima. Do casamento nasceu Renata, fisioterapeuta, casada com Davely Manoel da Silva; e dois netos, Moara e Rafael, este com nascimento marcado para o início de outubro.
Foi médico dedicado e homem público incansável e diferente. Era festeiro. Foi político. E esportista. Sua figura singular, risada característica e corpo agigantado jamais passaram despercebidos em quaisquer ambientes. Não havia limites para o que Aníbal focava: na década de 70 candidatou-se e ganhou a coroa de Rei Momo do carnaval francano. Fez amizade com o cantor e compositor Luiz Vieira e, quando o artista se encontrava na região, era possível vê-los em festas, acompanhando Vieira na ‘contação de causos’ e declamando.
Seu casamento com Regina aconteceu na Cabana de São Benedito. Não na igreja. Regina confirmou: Aníbal mandou fazer os convites do casamento que aconteceria na Igreja de São Benedito. Recebeu-os e os perdeu. Como não havia mais tempo para distribuir, publicou o convite do casamento em jornal. Apareceram tantos que a igreja ficou pequena. A solução foi levar tudo para a Cabana, salão de festas daquela comunidade.
Integrou a comissão técnica da Associação Atlética Francana quando a equipe ascendeu à Primeira Divisão, como Fisiologista do Esforço. Aliás, atletas de ponta do futebol, basquete e voleibol da época encontraram no profissional tratamento diferenciado que reduzia tempos de recuperação e retorno à prática do esporte.
Em 1976 candidatou-se a prefeito de Franca, mas as peculiaridades de sua vida não lhe permitiram lograr êxito. Elegeu-se vereador entre 1983 e 1988 pelo Partido dos Trabalhadores. Era em sua casa que personalidades do partido descansavam e, às vezes, pernoitavam. Por lá passaram Lula, Hélio Bicudo, Eduardo Suplicy. Fez, com a maioria deles, amizade duradoura.
Os anos que se impôs morar e viver sozinho – sua mulher estava cuidando da mãe em tempo integral e, sua filha, dedicada ao trabalho e à sua família, mas estavam com ele diariamente, adaptando-se aos horários diferentes nos quais Aníbal optou por viver – remeteram-no a criar uma rotina estranha e difícil. Trocou os dias pelas noites e, em casa, não descuidou jamais da decisão de não mais beber. Apenas em algumas ocasiões concedia-se sair com Regina, para ouvir Laércio de Franca, onde quer se o maestro viesse a se apresentar em sua atual fase. No restante, permanecia incontáveis horas na televisão, assistindo esportes, especialmente tênis. Varava madrugadas. Disse a José Alexandre, que o foi acomodar na cama no dia de sua morte, “que havia o risco de que morresse em seus braços”. Foi quase. Morreu dormindo, segundo o médico que atestou sua morte. O velório aconteceu no São Vicente de Paulo. O sepultamento se deu no Cemitério da Saudade.