11 de julho de 2026

‘A música me tira do patamar normal das outras criaturas’


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MISSÃO - O maestro Nazir Bittar Filho quer elevar Franca a status de centro cultural

Na infância, o disco do pai com o tema do balé Lago dos Cisnes já fazia parte do repertório de Nazir Bittar Filho que, ao lado das irmãs, criava letras para a canção. A Sinfonia nº 40 de Mozart, primeira música do LP da novela A Fábrica (Rede Tupi, 1971) - protagonizada pela atriz Aracy Balabanian - também chamava a atenção do futuro maestro, que começou a estudar piano aos 7 anos, mesmo sendo alvo de preconceito. “Foi uma luta muito grande para minha mãe e para mim porque na época pensava-se que piano era para meninas e violão para meninos”, recorda Nazir, que se apaixonou pelo instrumento assim que a irmã mais velha começou a ter aulas com a professora Marlene Minervino de Castro, que também tornou-se sua mestre.

Aos 15 anos, em plena adolescência, Nazir ainda tinha dúvida sobre o futuro da sua carreira profissional e pensou até em estudar artes cênicas. No entanto, seguiu o conselho da professora e foi estudar teoria. No curso profissionalizante, começou a ter contatos com outras partes da música e desistiu de ser ator. “Achei tudo maravilhoso e tive a sorte de ter aula com professores muito bons como a Célia Maria David, Vicente de Paula, Célia Polo, que fizeram eu me apaixonar pela música”, conta. “Comecei a ver que piano era pouco, individual, sozinho. Me encantei pela parte vocal e instrumental e passei a fantasiar a ideia de ser regente e pianista”.

Filho do saudoso médico Nazir Bittar e da advogada e filósofa Gaudete Lobo Bittar, Nazir nasceu no Rio de Janeiro e veio para Franca aos 5 anos quando a família se mudou para a cidade. Com formação superior nos cursos de Regência Orquestral e Piano, pela Unicamp (Campinas), em 1995 foi fazer mestrado na Alemanha onde residiu por 11 anos.

Em 2007, o maestro retomou suas raízes em Franca e um ano depois, em abril de 2008, aceitou o convite para reger a Orquestra Sinfônica de Franca (OSF). De lá para cá, Nazir revolucionou a maneira de fazer ópera com espetáculos criativos que já uniram os 28 músicos, no mesmo palco, artistas circenses, bailarinas, seresteiros, bandas e, recentemente, um DJ. Os concertos inusitados agradaram aos francanos que hoje lotam o Teatro Municipal a cada apresentação.

No entanto, muita coisa ainda precisa ser feita para a OSF ganhar repercussão e prestígio nacional. Com aprovação na Lei Rouanet, Nazir busca o apoio financeiro de empresários locais para profissionalizar os jovens e talentosos músicos e elevar Franca a status de centro cultural.

Comércio da Franca - Quando você teve certeza de que a música seria sua profissão?
Nazir Bittar Filho -
Eu queria ser ator porque sou muito performático. Mas no curso teórico comecei a ter contatos com outras partes da música e me apaixonei. Percebi que o piano era muito individual e gosto mais do coletivo. Me encantei pela parte vocal e instrumental e passei a fantasiar a ideia de ser regente e pianista. A primeira música que tive contato mais profundamente foi o Concerto Brandeburguês, nº 3, de Bach, que me deixou fora de órbita. Comecei a ver que a música me tirava fora do normal, numa fase de adolescência, cheio de espinha e hormônios (risos). Através da música eu saía do patamar normal das outras criaturas e me sentia especial por isso.

Comércio - O que você estudou para se tornar regente?
Nazir -
Fiz curso de Regência Orquestral e bacharel em Piano na Unicamp (Campinas). Nesse período, em 1992, passei oito meses estudando regência em Londres e hospedado na casa da minha tia. Um ano depois de formado fui para a Alemanha, um lugar que qualquer músico tem que passar. Na verdade, para mim seria um segundo estágio porque eu queria primeiramente ir para os EUA fazer mestrado. Só que não deu certo e, em uma semana, decidi e fui para a Alemanha incentivado por uma tia que morava lá.

Comércio - Por que ficou durante 11 anos na Alemanha?
Nazir -
É uma coisa minha, me “enraízo”. Depois de aprender o idioma, fiz mestrado em Musicologia para entrar no meio acadêmico, participei de congressos internacionais e até pensei em não ser mais maestro e atuar somente na área acadêmica.

Comércio - O que te fez voltar e popularizar a música erudita em Franca?
Nazir -
Lá eu tinha amigos, dinheiro, casa, emprego, mas sempre uma certa insatisfação por não estar no meu País. Em 2004 meu pai morreu e foi um chacoalhão na minha vida. Ainda fiquei mais um ano achando que as coisas iam voltar ao normal, mas não consegui ficar e voltei em fevereiro de 2006 disposto a trabalhar, a fazer música, mas sem perspectiva. Logo passei no doutorado da Unicamp - defendo tese em fevereiro de 2012 - e fui convidado para reger a Orquestra Sinfônica de Franca. Aceitei, mas não pensando em popularizá-la, sem menor intenção, tanto que o meu primeiro concerto (em 9/8/2008) foi completamente formal, nos moldes europeus, bem seco.

Comércio - Mas você formou público. No início, as apresentações da OSF tinha um público tímido. No último concerto, as pessoas até dançaram no Municipal...
Nazir -
Sim, graças a Deus. O sucesso da Orquestra é uma junção de fatores: primeiro que tenho uma dedicação incansável e passo 100% do meu tempo pensando nela; outro fator é que os músicos têm uma vontade muito grande de crescer com foco na formação; também tenho o apoio do prefeito (de Franca, Sidnei Franco da Rocha) e do próprio Comércio da Franca, que divulga os espetáculos com matérias e fotos belíssimas. Os músicos de fora que são convidados para tocar com a OSF se surpreendem com a euforia dos francanos nos concertos, que é atípica. Fila na porta do teatro só tem em Berlim (Alemanha) e em Franca...

Comércio - O engraçado é que isso só acontece com a OSF. Outros eventos culturais da cidade não atraem público. Por quê?
Nazir -
Não vou falar nunca (risos), nem sob tortura. Tem que fazer bem feito porque o nosso concerto é infinitamente menor que Londres, Paris e Nova Iorque, mas não é vergonhoso. A concepção é boa, enfim, é menor, mas não pior.

Comércio - A ousadia é sua marca registrada. Você já colocou no mesmo palco com a orquestra, artistas circenses, seresteiros, banda, bailarinas e até DJ. Por que ousar tanto?
Nazir -
Eu me considero um estrategista porque sabia da lacuna de 35 anos entre mim e o talentoso maestro Garboggini - que tentou e fez grandes coisas em Franca, mas não resistiu. Eu não ia competir apenas com as armas da música erudita e pensei em usar apelos visuais e emocionais. Mas a estratégia estava naquilo que eu gostaria de fazer com a música (realização pessoal), aquilo que a Orquestra precisava tocar, o que o público gostaria de ouvir ou o que o público precisaria ouvir? Dentro desta ideia crio um desafio para os músicos e para o público, um concerto com mais atrativos com músicos de fora e principalmente artistas de Franca. A ópera é a minha grande paixão e nela há cantores, músicos, bailarinos, atores, cenógrafos, um conjunto. Franca tem uma série de artistas esquecidos, ou seja, os bailarinos ficam restritos às suas escolas e nos espetáculos de fim do ano...

Comércio - Como é trabalhar com músicos que ainda estão em busca de uma profissionalização?
Nazir -
Tive que rever as técnicas de ensaio, orquestração, criar arranjos, adaptações. É complicado primeiramente filtrar aquilo que está ruim por conta da imaturidade da OSF. Com foco musical, tive que ensinar os músicos a afinar o instrumento, corrigir nota, ritmo, uma série de coisas que eu não fazia mais desde a época da faculdade.

Comércio - Quais os outros desafios que você encontrou e ainda enfrenta à frente da OSF?
Nazir -
O primeiro grande desafio foi fazer com que a Orquestra entrasse no gosto do público, dos políticos, da imprensa e dos formadores de opinião. Peguei a OSF numa fase muito destruída.

Comércio - E o que te motivou a reerguê-la?
Nazir -
Eu me lembro que estava desmotivado até que um dia veio um som lindo e afinado que me fez perceber que a Orquestra era um casulo que estava abrindo a primeira asa e vislumbrei uma coisa que achava que estava tão distante, mas não estava. Eu tinha nas mãos uma pedra bruta para lapidar e sentia que era uma missão. Até hoje a luta financeira é muito grande, mas penso que estou numa fase de plantio e uma hora vou colher os frutos.

Comércio - O público, a Orquestra já conquistou. A prefeitura também incentiva por meio de um convênio. E os empresários, têm colaborado?
Nazir -
Graças à Prefeitura (que paga R$ 80 mil por ano em troca de algumas apresentações) tudo se manteve até agora. Recentemente a Lei Rouanet (do Ministério da Cultura, que autoriza projetos a captar recursos junto a pessoas físicas pagadoras de Imposto de Renda ou empresas tributadas com base no lucro real visando à execução do projeto) foi aprovada. O empresário pode vincular seu nome ao projeto sem pagar nada. Estamos procurando empresas interessadas.

Comércio - Quanto custa a manutenção da Orquestra?
Nazir -
Hoje cada um dos 28 músicos recebe uma ajuda de custo de R$ 150 por mês, sendo dois ensaios por semana. O salário ideal para o primeiro passo no caminho da profissionalização é de R$ 1 mil. Também recebo uma quantia simbólica. Para a aprovação da Lei Rouanet fiz um projeto enxuto de 20 concertos por R$ 400 mil e mesmo assim ainda sinto uma certa barreira porque os empresários francanos não conhecem as vantagens da Lei.

Comércio - É possível revelar talentos na cidade por meio da orquestra?
Nazir -
Sim. Muitos já se revelaram informalmente. O trombonista Mateus Castro tem tocado cada vez melhor e tem uma informação teórica interessante porque fez conservatório em Ribeirão Preto. Numa oportunidade, ele fez o arranjo de uma música e a partir dele outros já mostraram talento para isso.

Comércio - Dois projetos foram criados para angariar recursos para a OSF. Como eles estão sendo desenvolvidos?
Nazir -
O projeto Amigos da OSF acabou de ser reestruturado. A pessoa interessada pode doar qualquer quantia através de um boleto bancário mensal. Já o Adote um Músico, criado no ano passado, tem hoje oito músicos apadrinhados. O padrinho paga R$ 300 mensais durante seis meses, no mínimo, para o músico estudar.

Comércio - Você ainda mantém um projeto pessoal, a Orquestra Sinfônica Jovem. Haja fôlego...
Nazir -
Ela é um celeiro de músicos, uma ponte entre os grupos musicais da igreja e o projeto Guri, com ensaio uma vez por semana. Hoje são 32, com idade entre 11 e 18 anos. Fui selecionado no Bolsa Cultura, da Prefeitura, e agora vamos receber ajuda financeira. Acredito neles, que têm potencial muito grande, mas só a partir do primeiro concerto, quando tudo engrenar, é que terei argumentos para falar que vale a pena.

Comércio - Hoje você está realizado? Quais são os seus sonhos à frente da OSF?
Nazir -
Sim, muito. Meu grande sonho é fazer com que eles (músicos) saiam da escuridão da ignorância, ou seja, que todos tenham aulas com bons professores e entrem para o caminho da profissionalização. Também quero fazer com que Franca se torne um centro cultural. Sou meio místico, apesar de não ser exotérico, acredito que exista uma força de energias se você começar a colocar a energia certa no lugar certo. Não acredito em coincidências, mas em destino. Por exemplo, ao me aprofundar em Yerma (uma ópera de Heitor Villa-Lobos), minha tese de doutorado, tive contato com a primeira performance feita no Santa Fé Ópera (SFO) - se a sigla for lida de trás para frente vira OSF -, na cidade de Santa Fé, no Estado de Novo México (EUA), em 1971. Neste local no meio da montanha foi criado um festival de ópera. Franca também fica perdida numa montanha no final da Alta Mogiana e tenho certeza que aqui ainda será um centro de ópera ou de qualquer área cultural.