Tem gente que faz que não sabe o que acontece em volta do corpo. Preocupação mesmo, só com o próprio umbigo
Não quer problemas, quer só alegrias; não quer preocupações, quer ficar de cuca fresca, ‘na boa’; não quer perder tempo com o outro, pois seu narcisismo ocupa todo o derredor e cobra dedicação exclusiva. Faz tempo que a urgência de ter ultrapassou a honradez de ser. Que o outro se “exploda”, como diria Justo Veríssimo, personagem de Chico Anísio, ele que entendeu muito antes da maioria, para onde caminha a humanidade. Os maus exemplos estão aí, atropelando, literalmente, a nós todos. Certamente você já andou atrás de um desses motoristas que desgraçam o trânsito francano falando ao celular, ultrapassando sem olhar pelo retrovisor, “furando” semáforos vermelhos; fazendo fila dupla para conversar com o amigo frente aos barzinhos ou postinhos da moda.
Também já se desviou, certamente, dos que caminham pelas calçadas como se mais ninguém estivesse partilhando espaços com eles. Aí de você se não sair da frente. Já testemunhou “fura-filas”. Já olhou feio para quem estaciona “por um momentinho” em vagas de idosos ou cadeirantes – e concluiu que não tem mais gente com vergonha na cara para saber-se “cobrado” pelo mero olhar de desaprovação. E, suprema angústia, já tentou, sem conseguir, entender por que se permitiram leis que autorizam apenas alguns a decidirem em benefício próprio na hora de aumentar salários, decidir tempo de férias, exercitar poder visando o próprio umbigo – olha ele ai, de novo – e mais nada. O elenco de situações do tipo se amplia. É, hoje, quase infinito. Na base, a educação e a cidadania; ou a falta delas.
Educação que se origina no berço e se acaba de construir na escola é exercício cidadão em extinção. É lamentável, mas, cresce o número de pais que, sob a égide da liberdade, dão a seus filhotes, o direito de fazerem o que lhes der na cabeça. Frustro-me. Aqueles dentre tantos com os quais converso e que penalizam o erro de seus filhos em honra à ética e à educação adequada, estão ficando sozinhos. Vão desaparecer – por força da lei!
O que me parece é que o mundo despreocupado, gestado pelo “eu sou eu e o resto é bosta” toma conta de tudo e de todos. (Desculpem-me os leitores que me acompanham. Tenho utilizado esta frase de modo recorrente, e não há expectativa alguma de que isso mude). Chamem este risco do que quiserem, de “lei do menor esforço”, “estatuto da criança e do adolescente”, “direitos humanos”, “prisões cheias que é preciso esvaziar”, “não tenho tempo”, “sexo fácil e sem compromisso”. Quem é obrigado a verificar se as leis estão sendo cumpridas – mesmo que com elas não concordem – estão atentos, exercitando o que deles este mundo moderno, rápido e descompromissado com o outro, espera: ‘vamos, vamos, vamos... Atrás vem gente...’
A FUNÇÃO SOCIAL DA MÍDIA
Há esperanças? Há. E a (boa) mídia colabora. Publicamos, esta semana a triste história de uma mãe que, confiando em sua fé, pede ajuda para que sua filha consiga reverter grave problema no cérebro. Foi publicar – a exemplo de muitas outras matérias que fizemos ao longo dos últimos anos – e os bons (sim, ainda os há), silenciosamente, se aprumaram e ofereceram o que podiam. O que entristece é saber que que são sempre os mesmos a atender o que lhes dita suas consciências cidadãs. A maioria passa adiante, rápido, cegos, surdos e mudos. Você sabia que no mundo de hoje, seu olhar e sua capacidade de sensibilizar pessoas também são midiáticos – capazes de fomentar respostas de outras pessoas não plenamente informadas? Então, você que integra o grupo dos bons, faça sua parte.
DISTROFIA DE DUCHENNE
Trata-se de doença de origem genética que causa degeneração muscular progressiva e agressiva. O francano Fabrício Silva Rodrigues, portador, jamais se deixou abater. Mesmo confinado a uma cadeira de rodas e com movimentos cada vez mais tolhidos, pensa em outros portadores. Organizou em Franca um Encontro Nacional para discutir o tema, auxiliar a compreensão e preparar cuidadores. Podia estar quietinho em seu canto...
CONSCIÊNCIA CRÍTICA
O Saresp, exame que analisa o desempenho das escolas públicas, avisou: o tema de redação do exame deste final de ano é “carta de leitor”. As escolas francanas têm levado o assunto a sério, e isto é relevante. Ao estimular crianças a lerem e comentarem os fatos principais do dia a dia local, nacional e internacional, professores os formam como partícipes das coisas e das causas, ao mesmo tempo em que imprimem, neles, o gosto pelo exercício de consciência crítica. Então, há, sim, luz no fim do túnel.
MOVIMENTOS
Embora ainda dispersos e desorganizados, pipocam aqui e ali arremedos de movimentos sociais em observação e critica à vida política, esportiva, institucional e social. Em Franca, mais e mais pessoas assistem às sessões da Câmara de vereadores. Alguns até já se arriscam a usar direito previsto e se inscrevem para usar a tribuna durante as sessões. Quem não tem a coragem necessária de dizer o que pensa em viva voz, fica no plenário, mas estar lá também já é uma vitória. Sabendo-se observados, os vereadores podem repensar coisas. A novidade maior está na Internet. Alguns sites e blogs estão surgindo com foco em concentrar gosto e desgosto em relação a temas que podem interferir na vida de cada um de nós. O aumento de cadeiras e de salários que os vereadores querem aprovar nas próximas semanas e, até, férias que pretendem se dar aos meses de julho, estão, sim, sendo observados. A julgar pelo número de comentários que este Comércio tem recebido todos os dias e, também, sobre manifestações que estão sendo armadas para protestar com veemência nas reuniões da Câmara que tratarem do “pacotaço” pretendido, os vereadores não terão vida fácil. Movimentos justos, mas ainda não há mobilização. Tenho saudade dos caras-pintadas.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br