O núcleo de Cinema e Psicanálise de Franca exibe neste sábado, a partir das 15 horas, na sede campestre do Centro Médico de Franca, o filme Cisne Negro, de Darren Aronofsky. Na história, Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios problemas psíquicos. Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente diretor artístico, ela passa a enxergar uma concorrência desleal vinda de suas colegas. Leia abaixo o comentário de Fátima Cassis, membro da SBP-RP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto), que ministrará a palestra após a exibição do longa.
O BRANCO E O PRETO DO CISNE
Complexo é um dos adjetivos deste filme que levou a estatueta do Oscar de melhor atriz para Natalie Portman, com direção de Darren Aronofsky.
Foi me contado que o cisne negro nasce branco, somente quando cresce ele se transforma em negro de fato. Entre o branco e o negro... entre o real e o imaginário... entre o amor e o ódio... entre a mãe e a filha...
Vivemos sempre entre ambiguidades, conflitos. A psicanálise sempre se baseou teoricamente na ideia de conflitos mobilizados pelas dúvidas que todo ser humano experimenta. A ambivalência caracteriza-se pela sustentação de sentimentos contraditórios no relacionamento humano. Essa sustentação nem sempre é fácil de ser mantida ou de ser elaborada, às vezes dando origem a estados mentais alternantes, dissociados um do outro.
Entre Nina e sua mãe não houve espaço para a percepção da existência concomitante de amor e ódio necessários para evoluir até um relacionamento amadurecido onde o amor tem raízes mais profundas que o ódio. Quando sua mãe ficou grávida e teve que renunciar à sua profissão de bailarina, talvez por um sentimento de culpa inconsciente, o ódio ficou inacessível e, portanto, não pôde ser elaborado. O que pode ser vivido foi um relacionamento claustrofóbico.
Acredito muito na trasngeracionalidade de conflitos, isto é, quando um conflito não é elaborado em uma geração, ele aparece na geração seguinte. Assim vejo também Nina, com a mesma dificuldade de sua mãe para vivenciar seus sentimentos conflitivos em relação a uma mãe invasiva.
Com um grande esforço psíquico e com a ajuda do outro, no caso o diretor artístico da companhia de ballet, Thomas, estrelado por Vincent Cassel, Nina se rebela contra suas aspirações infantis e somos convidados a acompanhar a fascinante transformação de uma moça frágil e doce em uma versão muito mais feroz e verdadeira de si mesma.
Sem nosso encontro com nossas verdades, nos tornamos reféns de um mundo catastrófico e assustador, como propõe o diretor, através de sua rica personagem, neste valioso filme.