“Velha é a sua avó!”, responde a aposentada Evani Alves Ribeiro Melgácio, de 72 anos, quando ouve de algum motorista apressado a frase: “Velha, sai da frente”. Orgulhosa por dirigir há 34 anos, sem nenhuma multa ou acidente, ela é um dos 7.819 idosos motoristas em Franca. Em que pese a disposição cada vez maior e a vida ativa das pessoas com 65 anos ou mais, a Organização Mundial da Saúde classifica essa faixa etária como idosos. Segundo dados do Detran (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo), a terceira idade ao volante representa 4% dos motoristas da cidade, que até agosto eram 180.557. Os três condutores mais velhos têm 93 anos.
Na contramão das famílias tradicionais, Evani conquistou a CNH primeiro que o ex-marido. Na época, com 38 anos, ela havia se mudado de Claraval (MG) para Franca e sentiu necessidade do carro para trabalhar e passear. “Nunca ganhei uma multa. Acho que os motoristas estão mais mal-educados e há mais veículos nas ruas. Hoje está ‘feio’ dirigir. O pior é a falta de educação, se a gente reduz um pouco a velocidade, sempre o de trás buzina. Tem que ter controle emocional”, conta a aposentada, que tem as imagens de São Cristóvão e do Divino Pai Eterno penduradas no retrovisor.
Mesmo transitando para todo lado, Evani sabe que tem responsabilidade redobrada e não se arrisca a viajar sozinha para muito longe de Franca. Apaixonada por Fusca - ela já teve vários - ficou um ano e meio longe do volante e só voltou no início de 2011, quando renovou a CNH e adquiriu um Uno. “Pensei: estou viva, lúcida e, se dou conta de dirigir, por que vou depender dos outros?. A hora que eu achar que sou um risco no trânsito, eu paro”, disse, revelando que os filhos não a incentivam muito a dirigir.
Para adquirir independência dos filhos, o comerciante aposentado Argante Bettarello Filho, 80, não larga o seu Fusca 1972, que dirige somente na cidade. “Ele supre as minhas necessidades. Levo a minha ‘patroa’ ao médico e me satisfaz”, conta, afirmando que tem o carro há 26 anos.
O aumento de carros nas ruas não é problema para Argante, que dirige com cuidado e nunca bateu. “Enquanto a Ciretran me der oportunidade, vou dirigir. Quando eu não estiver mais apto para isso, quando sentir que ‘meus neurônios’ não funcionam mais (risos), vou parar.” Exemplo de vitalidade, Argante recebeu a reportagem enquanto navegava pela internet em seu notebook. Na varanda, o tear é seu companheiro na produção de belos tapetes.
IDOSOS MAIS ATIVOS
Segundo o Detran, Franca tinha até o mês passado 180.557 motoristas. Destes, 7.819 são idosos com as CHNs ativas, ou seja, 4% do total de motoristas cadastrados. No Estado, eles somam 912.838 condutores. A proporção é de que quanto maior a idade, menor o número de motoristas ativos. Acima de 80 anos são 562 condutores francanos, sendo que destes, apenas 18 têm mais de 90 anos.
É possível relacionar esses números à expectativa de vida do brasileiro e ainda sobre como os idosos estão mais ativos. Segundo Cláudia Cintra Carrijo Marques, coordenadora do Centro de Convivência do Idoso do Lions Sobral (CCI), os idosos estão vivendo mais e a sociedade está se adaptando com uma mudança cultural e comportamental. “Eles estão menos isolados e, com incentivo da própria família, participam das atividades cotidianas como levar o neto na escola ou fazer compras”, ressalta Cláudia, que atende hoje 350 idosos. “A sociedade exige mais a participação social deles. Muitos ainda trabalham e outros ocupam o tempo com atividades físicas, intelectuais e artísticas aqui no CCI”, reforça a coordenadora.
Para Cláudia, o reflexo dessa nova postura é perceptível na legislação e nas ruas. “Exigir que o idoso pare de dirigir seria atestá-lo um certificado de pessoa inativa”, acredita.