Há 24 anos, uma visão com jovens cantando e dançando num campo aberto para louvar a Deus fez nascer o maior evento de música católica do mundo: o Hallel. Maria Theodora Lemos Silveira, a tia Lolita, pediu a Deus um caminho para levar seus filhos bateristas a se aproximarem da religião. A resposta veio com a visão. Era janeiro de 1988 quando o primeiro Hallel começou a ser organizado.
Passado quase um quarto de século, o evento hoje reúne em três dias mais de 80 mil pessoas e tem versões realizadas em pelo menos 13 cidades do Brasil e ainda no Chile. Mais de 30 municípios esperam na fila para receber uma edição. Toda a organização é tocada pela Tia Lolita, uma senhora de voz serena e que completa 78 anos em outubro.
Filha de uma família carola, Maria Theodora sempre esteve ligada à igreja católica. Quando adolescente, pensava em ser freira, mas a família não aprovou a ideia. “Acho que Deus mostrou aos meus pais que este não era o meu caminho. Minha vocação seria mesmo ser uma leiga e ajudar a evangelizar”, conta.
Aos 22 anos, casou-se com o engenheiro Mauro Silveira, com quem teve cinco filhos. Foi a doença de sua filha mais velha Mariana que a aproximou ainda mais das atividades da igreja. Aos 13 anos, Mariana recebeu o diagnóstico de que estava com Lupus Eritematoso disseminado pelo corpo e morreria em poucos meses. “Neste dia, cheguei em casa e abri a Bíblia em busca de uma resposta de Deus para tudo aquilo. E o que li foi um trecho dos Hebreus que falava sobre o poder da fé. Eu decidi então acreditar que o Senhor curaria minha filha. Não fiz promessa, apenas acreditei na palavra de Deus”.
Meses depois, sua filha estava curada e Lolita decidiu retribuir. “Me tornei uma missionária. Visitava igrejas e comunidades para divulgar a palavra de Deus e dar o exemplo de como encontrar Jesus. Fui me aproximando cada vez mais da igreja e entendendo que esta era a minha missão”.
Em 1988, Maria estava preocupada com seus filhos. Os garotos estavam começando a tocar bateria e envolvidos com o mundo do rock. “Eles tocavam bem. Eu adorava, mas queria que eles também louvassem a Deus. Então fiz uma oração pedindo ao senhor que me mostrasse um caminho de aproximá-los da religião. A resposta veio com a visão. Foi assim que surgiu o Hallel”.
Hoje, além do evento musical, a Associação Nova Evangelização criada por Maria Theodora ainda mantém uma escola de evangelização que atende por mês cerca de 400 pessoas. “Quando me dizem que eu fiz tudo isso, eu costumo responder que a pessoa está errada. O Hallel é uma obra de Deus e não minha”.
Comércio da Franca - O Hallel chega este ano a sua 24ª edição. Hoje ele é considerado o maior evento de música católica da América Latina. A senhora imaginava que um dia o Hallel, que nasceu pequeno e quase sem organização, se tornaria tão grande e alcançaria tamanha importância?
Maria Theodora Lemos Silveira, Tia Lolita - Primeiro, se me permite, quero fazer uma correção. Hoje já podemos ser considerados o maior evento católico musical do mundo. Realizamos há algum tempo alguns eventos na Europa e até em Roma e nenhum chegou a reunir tanta gente como no Hallel em Franca. No máximo, conseguimos 150 pessoas. Agora, respondendo sua pergunta, quando fizemos o primeiro não pensávamos que haveria um segundo evento. Tanto que, nos anúncios da época, o nome era apenas Hallel e não o 1º Hallel. Faríamos apenas um e acabou. Mas a equipe ficou entusiasmada. Achou bom e decidimos continuar.
Comércio - Na opinião da senhora, qual o segredo do sucesso do Hallel que a cada ano vem atraindo mais pessoas?
Tia Lolita - Sem dúvida, é a vontade de Deus. A gente organiza, faz propaganda, mas quem traz as pessoas até aqui é Deus. É o amor de Deus. As pessoas se sentem tocadas para vir a Franca e, quando chegam, encantam-se ao ver os jovens cantando e dançando animadamente sem uma gota de álcool. Tudo em nome e em louvor do senhor.
Comércio - O Hallel nasceu pequeno em Franca, mas hoje já tem versões realizadas em diversas cidades brasileiras e até em outros países. Como a senhora vê essa expansão?
Tia Lolita - Para você ter idéia, hoje no Estado de São Paulo pelo menos 13 cidades já realizam seu próprio Hallel. Outras 30 estão aguardando para receber uma edição. Hoje (na sexta) chega uma delegação do Paraguai aqui para, na segunda e na terça-feira, receberem um curso de capacitação para realizar o Hallel no país deles. Essa expansão você acha que é obra nossa? Não é. É de Deus que está no céu e organiza as coisas como Ele quer. Chama as pessoas que ele quer. Basta ter o coração aberto.
Comércio - Pela primeira vez, neste ano o Hallel abriu espaço para a participação de evangélicos. Por que essa decisão? E como a senhora vê a expansão das igrejas evangélicas que atraem cada vez mais fiéis?
Tia Lolita - Jesus Cristo, em algumas passagens bíblicas, fala de um só rebanho, um só pastor. Ele fala de unidade, do povo dele. Ele não cita católicos ou evangélicos, ele prega para os amados dele. Nosso papa João Papa II também foi um grande incentivador dos atos ecumênicos. Em muitos documentos, ele pedia para que houvesse partilha e união entre evangélicos e católicos. Ele pedia respeito. E eu respeito os evangélicos, como sei que eles respeitam quem é católico. O convite para que eles participassem do Hallel não foi para que a gente pudesse discutir doutrina. Isso não importa. Cada um está muito bem onde está. Somos diferentes em alguns pontos, mas temos uma coisa em comum que é o bem mais precioso, Jesus Cristo. E é isso que queremos incentivar: a partilha do amor de Cristo.
Comércio - A ideia para o futuro é transformar o Hallel em um evento ecumênico e não apenas católico.
Tia Lolita - Nas missas, sempre depois da consagração, o padre fala assim “Deus da paz nos conceda unidade, santidade e paz”. Isso se repete no mundo inteiro em qualquer celebração eucarística. Toda igreja reza pela unidade e paz. Um dia a gente deveria escutar este pedido. Eu acredito que o Hallel, depois destes 24 anos de história, precisa acolher os evangélicos de coração aberto realmente. Espero que um número cada vez maior de evangélicos venha participar do nosso Hallel.
Comércio - São mais de duas décadas de Hallel. A senhora acompanhou tudo desde o começo. O que mudou de lá para cá? Quais foram as transformações do Hallel?
Tia Lolita - Quando começamos, era tudo muito improvisado. Mal tínhamos organização. Meu filho mesmo montou o palco pequeno de madeira e depois se apresentou como músico. Não tínhamos qualquer pretensão. Só queríamos levar o amor e a palavra de Deus para as pessoas através da música e do louvor. Tínhamos apenas o palco principal e só. Hoje somos um evento muito bem organizado. Trazemos o que há de melhor em qualidade de som para as apresentações. Ate 1995, não havia a participação de fieis de outras cidades. Hoje recebemos pessoas de todo o mundo. A estrutura também é bem maior. Somos como um self service de evangelização. Temos vários módulos para cada tipo de gosto. Até um para pessoas surdas e mudas. No começo, para organizar o evento, éramos poucos. Hoje temos mais de três mil pessoas trabalhando voluntariamente, por amor. Mas uma coisa ainda é a mesma. A vontade de evangelizar, despertar nas pessoas, principalmente nos jovens, o amor pela vida e a fé em Deus.
Comércio - A senhora acredita que apenas três dias de shows e pregações podem transformar a vida de uma pessoa?
Tia Lolita - Acredito sim. Ouvir a palavra de Deus, o testemunho, modifica a pessoa. Em média, cada edição do Hallel conta com 20 missas. E o que é a missa? É a presença de Deus vivo em nossa frente. Essa é a nossa fé.
Comércio - Existem algumas correntes dentro da igreja católica que não apóiam eventos carismáticos como o Hallel. Para os membros destas correntes, o Hallel é um espetáculo que alivia a alma, mas não traz a cura. Ou seja as pessoas vêm até o Hallel, mas não se engajam com as ações efetivas da igreja. Como a senhora avalia estas opiniões?
Tia Lolita - Eu acredito que quem vem ao Hallel e realmente participa de coração aberto não fica satisfeito com apenas três dias de evento. Muitos querem mais depois e procuram a igreja. Nós também mantemos uma escola de evangelização: o Hallel Escola. Trabalhamos evangelização com crianças a partir dos cinco anos. A continuidade e a transformação é possível sim e acontece. Quando a pessoa conhece o amor de Jesus, ela não fica satisfeita em apenas três dias.
Comércio - O Hallel seria então uma porta de entrada para a vida cristã?
Tia Lolita - Claro. A missão principal do Hallel é evangelizar, que significa anunciar Jesus Cristo, falar de amor, falar de fé, falar de uma vida que não termina aqui. Nós queremos que as pessoas tenham a consciência de que a vida é um dom de Deus e não deve ser limitada a apenas trabalho. Há muito mais a ser vivido. Discutir o sentido da vida, por que estamos aqui, qual a nossa vocação isso é o Hallel e quem vem e não sente diferença alguma é porque não viveu o Hallel de coração aberto.
Comércio - No ano que vem, o Hallel completa seu Jubileu de Prata, serão 25 anos de história. Como será a comemoração?
Tia Lolita - O ano que vem teremos uma comemoração maior. Nossa idéia inicial é fazermos 10 dias de Hallel, que começarão no final de agosto com um congresso de música, provavelmente no dia 31 de agosto e indo até o feriado de Sete de Setembro, que deve cair numa sexta-feira. Além disso, queremos preparar muitas atrações especiais, mas ainda é cedo para divulgarmos tudo.
Comércio - A senhora fala muito em fé. O que esta palavra significa para a senhora?
Tia Lolita - Para mim, fé é descansar em Deus. Se você não crê, diante dos problemas, você se agita, você se revolta. Quem tem fé acredita na palavra, sabe que não está sozinha, que não precisa se agitar. Quem tem fé se entrega a Deus. Então, para mim, fé é descansar no amor de Deus.