O mundo assiste, estupefato, ao drama que vivem os nossos irmãos da Somália. Ante as cenas mostradas, especialmente pela TV, que leva o mundo a testemunhar o infortúnio daquele povo africano, uma amiga me perguntou: mas, Deus não está vendo o sofrimento daquele povo? E respondemos, sem hesitação: Claro que está. Nada acontece que não esteja dentro das Leis Divinas, conforme nos asseverou Jesus, dizendo: “Não cai uma folha da árvore sem que se manifeste a vontade do Pai.”
Então, evidentemente, que tudo o que acontece naquele país está sob a supervisão divina. Se é assim, por que Deus não elimina o problema? Porque não pode? Então, não é supremo poder! Porque não quer? Então, não é suprema bondade. Alguns argumentarão que a situação é provocada pelas brigas políticas entre tribos rivais. Sim, há este aspecto a considerar. No entanto, as brigas pelo poder explicam os acontecimentos, não lhes dão, porém, justificativa. Outros alegarão que é o egoísmo humano que provoca a miséria. Sem dúvida, não fôssemos tão egoístas ou perdulários e a miséria não se instalaria em nenhuma região do planeta. Entretanto, a tese somente explica, mas não justifica.
Assim, qual a justificativa? Se tentarmos explicações sob a ótica da unicidade das existências, inexoravelmente, não encontraremos solução para a questão. O problema tem de ser analisado sob a visão da pluralidade das existências, isto é, aquele povo, na sua totalidade – vítimas e algozes –, nada mais é do que instrumento das Leis Divinas. Não que sejam obrigados a praticar o mal. É que as sábias e justas Leis conhecem nossas tendências e pelo Princípio da Afinidade, ou da Atração, agrupam os que devem vivenciar o mesmo drama. Assim, o que terá feito aquele povo na sua totalidade? Na essência, só Deus o sabe, entretanto, podemos fazer algumas conjecturas. Quem sabe se se trata de reencarnação dos bárbaros da antiguidade? Não seriam povos que, pelo uso da força teriam imposto a ruína a outras nações? Ou seriam aqueles que, egoisticamente, controlaram a produção de alimentos de modo a que tivessem maiores lucros? São hipóteses, mas não distantes da matemática da Justiça Maior.
São calamidades cuja causa pode repousar num passado, não necessariamente no orbe terrestre, mas em outros, porque infinitas são as moradas na Casa do Pai.
Finalmente, alguém poderia obtemperar: se os somalis são os responsáveis pela sua própria desdita, nada nos compete fazer em prol da minimização dos seus sofrimentos. Evidentemente que nos compete realizar o melhor que pudermos para ajudar nossos irmãos sofredores, porquanto, se, dentre a Humanidade, uns sofrem pelo resgate do seu passado culposo, aos demais compete cumprir a Lei de Caridade que manda socorrer incondicionalmente seu semelhante, fundando a ajuda, sobretudo, no esforço esclarecedor e transformador das consciências, depois de haver socorrido o estômago vazio.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais e diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca (Idefran)