Mais uma polêmica surgiu na cidade. Novamente em torno das normas vigentes, de sua adequação e de sua aplicabilidade na regulação da vida em sociedade. Bom para a democracia, pois significa que as pessoas estão se preocupando com a ‘coisa’ pública. Mesmo que tenham diferentes pontos de vista, estão emitindo suas opiniões e refletindo sobre a discussão que se cria nesse processo, o que já é muito positivo.
O caso em questão relaciona-se com a coleta de sucatas. O maior ferro-velho da cidade veio a público dizer que não irá mais comercializar plástico e papéis. O motivo alegado é bastante simples. As exigências legais para se adequar à exploração do negócio o inviabilizam.
Dentro do sistema capitalista, essa decisão em nada surpreende. A lógica que guiou o empresário é simples e linear. Se o negócio não traz lucro, então a única saída possível é fechá-lo. Caso contrário, a quebradeira seria inevitável e ninguém é obrigado a levar prejuízo.
O lixo, porém, não pode ser visto como um produto qualquer. Se nenhuma outra empresa da área se dispuser a ocupar o espaço deixado pelo ferro-velho em questão, como é que faremos? Deixaremos a cidade transbordar de plástico e papel, dois materiais excessivamente utilizados na vida moderna? Ou iremos entulhá-los em casa? Jogá-los na rua? Transportá-los até a porta da Prefeitura, da Cetesb ou do Corpo de Bombeiros e deixá-los por lá? Ou, no limite, deixar de utilizá-los?
Pelas contas apresentadas pelo empresário, dificilmente alguma outra empresa irá se arriscar no negócio. Se a maior da cidade desistiu, como esperar que as outras invistam nesse mercado?
As respostas para essas questões não são simples, mas permitem algumas reflexões. Se o Estado está interferindo no negócio com normas e exigências, precisa também tentar equacionar o problema financeiro criado por essas exigências. Pelas leis do mercado, ninguém se disporá ao trabalho se realmente o custo da operação e da adequação normativa superar a receita gerada pelas vendas.
Isso não quer dizer que os órgãos fiscalizadores devem parar de agir. Ao contrário, devem reforçar a fiscalização. Se houver algum grande incêndio ou qualquer acidente de impacto toda a sociedade cobrará por essas normas não observadas até o acidente. Mas também não adianta apenas fazer exigências que invibializem o negócio. Se não houver intermediários entre nós, produtores de lixo, e a indústria de reciclagem, o meio ambiente poderá se deteriorar ainda mais, pois esse lixo será fatalmente jogado em algum lugar.
A solução está na negociação. É preciso que empresários e governo se sentem para discutir o assunto e tentar equilibrar as exigências com aquilo que for efetivamente factível para esses empresários. Se não, vai sobrar lixo e sucata para todo mundo.