08 de julho de 2026

Obra do passado


| Tempo de leitura: 2 min

O prefeito, ao montar seu teatrinho amador de sempre, seguiu o modelo de José Serra, que “inaugurou” a maquete de uma ponte na Baixada Santista durante a campanha eleitoral em que foi derrotado por Dilma, só que mostrando uma maquete eletrônica do futuro viaduto da Major Nicácio.

Trata-se de uma obra que, ao invés de ser exemplo de futuro, é demonstração da visão ultrapassada do atual governo de Sidnei Rocha sobre a cidade. O modelo rodoviário de mobilidade urbana, calcado no atendimento das demandas do automóvel individual já se revelou um desastre ambiental e urbanístico em todas as cidades grandes e médias do País. A tragédia do trânsito e do transporte são resultados desta visão equivocada e atrasada dos governantes, que sempre privilegiaram obras, empreiteiras e viadutos para os automóveis individuais, relegando o transporte coletivo ao deus-dará. Basta lembrar que seu governo liberou um gigantesco conjunto privado com 1200 apartamentos próximo dali sem pensar no transporte coletivo e no meio ambiente.

Enquanto um ônibus transporta 70 pessoas em média por viagem, no Brasil as estatísticas mostram que os automóveis levam apenas 1,2 pessoa. A poluição do ar provocada pelos combustíveis fósseis é outro problema grave das cidades, fazendo crescer as doenças respiratórias. Os congestionamentos só fazem aumentar, levando à perda de horas de trabalho e ao stress de todos que circulam pela cidade. O SUS, com problemas estruturais de atendimento, sofre uma sobrecarga ainda maior para tratar dos acidentados no trânsito, cujo número amplia em espiral a cada dia de descaso e falta de planejamento da prefeitura. A solução não passa por aí.

Os desenhos do viaduto mostram que se trata ainda de um anteprojeto que não serve para ser licitado, apenas para fazer propaganda. Se for construído assim, os pobres pedestres, ao contrário do que afirmou o prefeito, terão dificuldades, pois não há passagem para as ruelas laterais e as calçadas terminam abruptamente. Sob a estrutura de concreto, ao invés de aproveitar o espaço destruído do belo canteiro central da avenida Major Nicácio, haverá um altíssimo e opressivo arrimo, com as folhas de palmeiras imperiais obstruindo a passagem de pedestres e veículos. Como árvores não crescem num lugar tão inóspito, o desenho só pode ser licença poética.

Obra do futuro mesmo seria anunciar 10 milhões de investimentos no abandonado transporte coletivo de Franca, que só vem piorando em seu governo. Seria executar ao menos parte do plano cicloviário elaborado no governo Gilmar ou corredores exclusivos para ônibus. Seria executar ao menos alguns quilômetros de calçadas adaptadas de acordo com a lei, tornando minimamente transitável andar a pé pela cidade. Seria preparar as vias para, num futuro ainda distante, projetar sem desapropriações ou traumas um Veículo Leve sobre Trilhos - VLT. Mas nada disso pensa o prefeito, de olho apenas nas próximas eleições, incapaz de imaginar a cidade depois de 2012.

Mauro Ferreira
Arquiteto e professor da FESP-UEMG