08 de julho de 2026

Sapatos baixos


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O mundo da moda é cruel. Como uma indústria das mais importantes na atualidade, a da moda precisa girar rápido, antecipando-se às mudanças que impactam o comportamento das pessoas. Se o ciclo de vida de um produto encurtou em quase todos os setores, o que dizer de uma área em que se atinge o emocional, com significados que explicitam estilos de vida, formas de expressão e classe sócio-econômica?

Essas mudanças, porém, não são recentes. O desbocado e romântico Bocage, poeta português do século XVIII, já deu uma boa mostra do que é essa indústria, mesmo lá na sua época, alguns séculos atrás. Diz a lenda que ele estava passeando ‘roto e com uma casaca a pedir restauro’, mas levava às costas uma peça de tecido. Questionado porque andava tão maltrapilho e não fazia com aquele tecido uma boa indumentária, respondeu fulminante: ‘estou à espera da última moda’.

Nossa indústria calçadista parece estar agora respondendo a essas mudanças, principalmente as que focam os pés e a alma feminina, pois os sapatos baixos agora estão em alta, dominando até 70% das coleções.

Porém, essa atitude reativa, mesmo em uma indústria tão dinâmica, poderia ser evitada se olhássemos com mais atenção para a demografia, como nos ensinam vários ‘gurus’ do mundo empresarial. Se isso fosse feito, talvez não respondêssemos ao mercado. Ao contrário, nos adiantaríamos a ele, possivelmente até mesmo com ares de pioneirismo, o que é sempre importante nesse ambiente cada vez mais competitivo.

Já faz tempo que a mulher vem assumindo diferentes papéis na sociedade, obrigando-se ao mundo do trabalho com todas as suas benesses e seus ônus. No entanto, não se desobrigou dos afazeres privados de seus lares. Diferente das mulheres de antigamente, sua jornada é bem mais difícil e extenuante, mesmo que mais dinâmica e prazerosa.

Talvez em um passado recente, tenham precisado ‘subir em saltos’ para enfrentar o machismo predominante em nossa sociedade. Depois de muita luta, porém, já conseguiram descer, o que talvez as tenha libertado da obrigação do salto cotidiano, mais chic e elegante, mas profundamente incômodo e desconfortável.

A demanda por saltos mais baixos, portanto, poderia ter sido observada anteriormente por nossos empresários, uma vez que antes de chegar a ser demanda esse processo precisou nascer como tendência, em um primeiro momento sutil e quase invisível, perceptível apenas a olhos e ouvidos atentos. Ao contrário do que disse um estilista entrevistado, essa inversão de saltos altos para saltos baixos não nasceu no mercado, mas sim nas transformações que foram aos poucos impactando a sociedade.

De qualquer forma, é bom ficar atento, pois as próximas tendências já nasceram em algum lugar. Como disse Akio Morita, criador da Sony, o importante é fazer mercados, não responder a eles.