Domingo, 8 horas. Encontrei-me com uma mãe e familiares no portão da Fundação Casa. Participei da entrevista inicial realizada por uma técnica de nome Simone. Essa entrevista tem a finalidade de esclarecer para o responsável pelo adolescente em cumprimento de medida sócio-educativa na fundação, a filosofia, os procedimentos etc. Logo à chegada, após nos identificarmos, passamos por procedimento padrão de segurança (revista pessoal). Fomos muito bem recebidos não com água e café, mas pela seriedade do trabalho e por encontrar pessoas que acreditam no que fazem.
A mãe do menor, uma mulher de causar inveja, pessoa simples, de pouco estudo mas de vida íntegra e honestidade ímpares, estava envergonhada pelo ato praticado pelo filho e por estar naquele local. Enquanto ela falava, eu refletia sobre a minha história de vida, minha família, meus pais, irmãos, as fases que vivenciei até aquele momento. A técnica da fundação fazia perguntas e interagia com a mãe de forma séria, profissional, respeitosa... digna de reconhecimento, pois quando da prisão, a mãe suportou humilhações dignas de protestos. A técnica entregou um manual de procedimentos para a família. Dentre as ideias que passou, uma me marcou: “quanto maior a liberdade, maior a responsabilidade’. Estava certa. A liberdade nos proporciona a possibilidade de experimentar tudo, mas esse tudo deve ser exercido com responsabilidade sob pena de sanção. Quando não utilizamos a liberdade com responsabilidade, certamente, haverá uma mitigação, uma restrição.
O adolescente, agora, por estar provisoriamente cumprindo medida sócio-educativa, terá que se amoldar às novas regras. Para ir ao banheiro, tomar água, café, almoçar, jantar, enfim, tudo terá que ter permissão e, somente, após, poderá realizar. Será obrigado a estudar e participar das atividades recreativas, culturais, esportivas, cursos profissionalizantes, pois, tudo constará de sua ficha de avaliação. A família, para visitar, terá que passar por entrevista e seguir regras que vão desde vestuário até o modo de se portar. Roupas curtas e coladas no corpo, nem pensar. Até sutiã com bojo ou aro é proibido!
É um recomeçar, é um dia de mudança, de transformação calcada na filosofia do “hoje”: ‘Hoje é um grande dia... Dia de transformação e superação. É o momento da retomada, recomeço e caminhada. Mais um dia de crescimento, pensamento, movimento de busca, encontro e oportunidade. Hoje tenho a esperança de um dia melhor, pois sou o elo de uma corrente em construção. Construir...Este é o momento, nada de concreto, tudo está em ebulição. O tempo é o hoje e eu faço essa história... Sou parte dela... Sou a história. Por isso, hoje agradeço a Deus, à minha família, educadores, minha pátria e meu mundo. E assim vou construindo hoje um novo amanhã’. A família e o adolescente ainda terão que enfrentar o processo judicial, porém, com a certeza de que em Franca, juiz, promotor, defensor, etc., agem com seriedade e acreditam no que fazem. Erros devem, portanto, ser encarados como possibilidades de transformação e mudanças para alcançar o único objetivo de ser melhor, amar mais a família, os educadores, os profissionais que agem com responsabilidade. Amar a liberdade, com responsabilidade.
Acir de Matos Gomes
Advogado e professor universitário