Está difícil encontrar uma cidade pequena. Pelo menos no modo de viver da população. O diminutivo fica por conta somente da extensão de terra e do número de habitantes. Nos demais componentes característicos de uma comunidade não tem como diferenciar tamanho. Qualquer cidadezinha enfrenta atualmente os mesmos problemas de uma urbe maior.
Há mais de 80 anos, Carlos Drummond de Andrade escreveu, sem o menor vestígio pejorativo, o pequeno poema Cidadezinha qualquer: Casas entre bananeiras/ Mulheres entre laranjeiras/ Pomar amor cantar// Um homem vai devagar/ Um cachorro vai devagar/ Um burro vai devagar/ Devagar... as janelas olham// Eta vida besta, meu Deus!
Experimente ler esses 8 versos, divididos em 3 estrofes, para qualquer criança ainda não alfabetizada. A partir da segunda leitura, ela provavelmente terá decorado este descritivo poema. E mais. Passa a repeti-lo, mesmo sem saber o tamanho da mensagem contida no texto poético de Drummond.
Imagine uma cidadezinha em que as cercas eram formadas por bananeiras. As barreiras nem existiam entre as casas. As mulheres desempenhavam suas atividades entre as laranjeiras dos quintais. Havia então pomar. Mais que isso. O amor estava presente entre as pessoas. Só restava cantar para expressar a felicidade reinante entre os moradores.
Na segunda estrofe, fora das casas, um homem entra na história vagarosamente. Por seu turno, um burro vai puxando a carroça devagar. Um cachorro acompanha o cortejo lentamente. Tudo sem correria. Sem acidentes de trânsito. Por fim, as janelas ficavam totalmente abertas. As pessoas podiam olhar à vontade. Agora, não. Portas e janelas estão cerradas. Metaforicamente a televisão virou a janela moderna. Todo mundo só olha para ela.
É, os costumes mudaram! Notícias deste Comércio comprovam as mudanças, para pior. A população de Itirapuã está às voltas com assaltos constantes. Os ladrões atacam residências e estabelecimentos comerciais em qualquer horário.
Em Cristais Paulista, a sanha do assaltante foi além. Em plena luz do dia, não satisfeito com o que encontrou para roubar, o facínora ameaçou estuprar uma menina. Depois, concretizou a bestialidade com a mãe da criança.
De modo contrário, dias antes, uma mulher vendeu a virgindade da própria filha em São José da Bela Vista. Mais uma vez volta a filosofia sobre a questão do degradante comércio sexual: desce mais quem vende o seu corpo ou quem o compra? Em civilizações do passado, mais abjeto ainda era o rufião.
Por essas e por outras fica constatado que todo poeta é também um profeta. Drummond encerra o poema com uma exclamativa premonição: ‘Eta vida besta, meu Deus’! Mais que besta. Muito mais. Nestes tempos modernos parte das pessoas tem se tornado pra lá de bestial. Trata-se de gente bem próxima da barbárie.
Antônio Araújo
Professor de Redação - tonin.palavras@uol.com.br