‘Os dois maiores presentes que podemos
dar aos nossos filhos são raízes e asas’
Hodding Carter, jornalista e escritor americano
Meu avô Osmar era um homem inteligente e culto. Tinha lá suas esquisitices e nunca foi emocionalmente muito estável, mas nada disso impactava seu relacionamento com os netos. Conosco, sempre foi muito divertido e afetuoso. Nos levava para passear em infindáveis circuitos de ônibus, sempre até o ponto final. Foi num destes trajetos que, lá pelos seis anos, me lembro perfeitamente de, pela primeira vez, conseguir ler uma palavra. ‘São José’, escrita num muro. Estávamos na garagem da empresa de ônibus. Fiquei maravilhado, tomado pela sensação indescritível de conseguir interpretar aquela série de letras que, até então, eram para mim sinais desconexos.
Vovô morava com minha avó Dina numa casa muito simples, de fundos, na Álvaro Abranches. Era um tempo em que, sem violência, permitia-se às crianças brincar livremente na rua. E assim, nos finais de semana, eu e meu irmão nos divertíamos na Cidade Nova com as crianças da vizinhança. Meninos como Semail, filho da dona Luiza, que era um pouco mais velho e dono de uma paciência infinita com a gente. Tinha também a venda do ‘seo’ Paulo, logo na esquina, onde vovô nos levava para comprar bala, chocolate ‘guarda-chuva’, rapadura...
Ali era onde também ele comprava cachaça, que consumia de um jeito tão singular que nunca mais encontrei nenhum outro adepto do seu estilo. Um pouco antes do almoço, vovô dispunha quatro ou cinco pimentas inteiras no centro de um prato. Amassava tudo pacientemente. Servia uma dose de pinga num copinho. E então comia as pimentas puras, sem nada, nem pão, regadas só por cachaça, diante dos olhares incrédulos de quem o observava. Nem sei se ele gostava mais da pimenta ou da cara de espanto que a gente fazia. Surpreendentemente, vovô não morreu de cirrose nem de qualquer problema no fígado ou estômago. Deve ter sido um tipo de milagre.
Crescemos frequentando muito a casa de meus avós. Meu pai, aficcionado pelos pastéis caseiros que sua sogra Dina preparava, era entusiasta especialmente das visitas no domingo, que terminavam quase sempre com a iguaria que o fazia sonhar. Numa noite inspirada comeu 14 de uma vez só. Está certo que eram menores que o habitual, delicados, massa sequinha recheada com carne moída, cebolinha e azeitona sem caroço. Ainda assim, catorze é um número respeitável. Papai comia sem remorso. ‘Não existe nada como o pastel da Dina’, comemorava.
Tudo isso acontecia no início dos anos 80, tempo de uma infância muito feliz. Tempo também de muitas risadas, destas que a gente só solta enquanto não tem conta para pagar, aluguel, emprego, filho... Um dos dias mais divertidos da minha vida aconteceu exatamente neste ambiente, na casa dos meus avós, que tinha virado nosso lar durante uma viagem de meus pais.
André, meu irmão caçula, sempre foi do tipo elétrico. Nada - e o que é pior, ninguém - o segurava. Dedé, como o chamávamos, não desligava. Nunca. Na época eu tinha uns 7 anos e ele, três. Dedé demorou a falar e, quando começou, engendrava umas palavras estranhas, particularíssimas, mas cujo significado aprendemos a conhecer bem. E rápido.
De todas, ‘tirrá’ era a que nos apavorava. Quando ele gritava ‘tirrá’, era melhor sair da frente. No vocabulário ainda restrito do meu irmão, ‘tirrá’ significava, sem margem para qualquer outra interpretação, que ele iria reduzir a pó o que estivesse na sua frente. Se fosse um jornal, ele despedaçaria. Se houvesse uma caixa, quebraria. Garrafas era melhor manter bem longe. Vitrolas (uma espécie de bisavô dos microsystems e trisavô do Ipod) ele destruiu várias. O que pudesse ser ‘tirrado’, ele ‘tirrava’. Sem dó.
Sempre fui mais pacato e nunca me importei de passar horas no sofá, lendo gibi do Pato Donald, simulando máquinas de escrever imaginárias numa caixa de sapatos velha ou, a melhor de todas as brincadeiras daqueles tempos, transformando tampas de panela e frascos de shampoo num fictício sistema de direção-marcha. ‘Dirigia’ horas aquele carro que só existia para mim. Devia ser bem ridículo para quem observava.
Naquela tarde eu me ocupava de conduzir o meu ‘veículo’ por uma estrada qualquer dos meus pensamentos quando um grito estridente me trouxe de volta à realidade. ‘Diiiiiiiiina’, berrava o meu avô, desesperado. ‘Diiiiiiiiiiiiinaaa, corre aqui’. Vovó, assustada, caminhava rápido do quintal rumo à cozinha. ‘Que foi, Osmar? O que tá acontecendo?’.
Meu avô, incrédulo, urrava. ‘Diiiiiiinaaaa, o Dedé tá ‘tirrando’ o meu rádio’. Rindo até não me aguentar mais, fui ver o que acontecia. A cena era impagável. Meu avô, transtornado, segurava umas peças na mão. André, sentado no chão com uma chave de fenda, só repetia ‘tirrá’, ‘tirrá’. E minha avó, sem saber o que fazer, tentava consolar vovô. ‘Calma, Osmar. Calma’.
De nada adiantou. Rádio ‘tirrado’, avô arrasado. ‘Sônia, o rádio era de estimação. Resistiu à guerra, a quarenta anos, a quedas. Só não deu conta do ‘tirrá’ do André’, exagerava, ao explicar para minha mãe o que havia acontecido. Nunca soube se ele nos perdoou pela destruição do seu rádio antigo, de mesa, caixa de madeira e chiado forte, mas uma coisa é fato. Nunca mais ficamos na casa deles nas férias. A partir daí, meus avós é que vinham para a nossa casa quando meus pais viajavam. O trauma, certamente, foi grande.
Hoje, entendo bem o desespero do meu avô. Meu filho João, pouco mais de um ano, repete o tio e demonstra grande aptidão para a arte do ‘tirrá’. Quebra tudo. Vaso, caixa, jornal, revista, brinquedos, caneca de café... e celulares. Já destruiu dois. Nada resiste à sua fúria infantil. Desde que se descobriu bípede, não anda mais. Só corre. E é assim, com passadas largas - e, às vezes, cambaleantes - que João parte para cima do que puder, nas suas missões exploratóras, ‘tirrando’ tudo.
‘Miiiilenaaaaa...’, vem aqui. ‘Miiiiiiiiiilenaaa... Rápido’. Pois é, leitor. É hora de encerrar nosso encontro de domingo. João está parado na minha frente, com cara de ‘tirrá’, risinho maroto, disposição infinita. Sinto que se não desligar agora, o computador onde escrevo a Gazetilha sairá definitivamente de operação em instantes. Terá, certamente, destino semelhante ao rádio do vovô. ‘Miiiiiiiiiileeeeena, corre aqui. Rápido’.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br