Mais uma vez a Santa Casa. Depois de 64 dias, de muitas reuniões, soluções anunciadas e ameaças de cortes nos atendimentos, a situação parece não ter melhorado muito. Os problemas continuam e o socorro prometido pelo Estado ainda não chegou. Dos R$ 5 milhões que deveriam chegar, veio apenas um. Apesar de importante, esse montante é insuficiente. Gera mais ansiedade em todos os envolvidos e mais ameaça de cortes.
Uma situação complicada, com ingredientes de melodrama para médicos, diretores e políticos do Estado e do município e conseqüências de tragédia para a população, que mais uma vez vê adiado seu direito à saúde.
Para o cidadão comum, fica difícil entender a lógica do Estado, bem como a validade de sua lei maior. De acordo com o Art. 196 de nossa Constituição, a saúde é direito de todos e dever do Estado, o que deve ser garantido mediante políticas sociais e econômicas que reduzam o risco de doenças e promovam o acesso universal e igualitário às ações e serviços de proteção e recuperação.
Em um momento em que a corrupção ganha cada vez mais espaço no noticiário brasileiro e em que o Estado investe pesadamente em estádios de futebol para a Copa do Mundo, patrocinando, inclusive, entidades privadas, fica difícil explicar ao povo brasileiro a essência dessa própria Constituição, sua fundamentação e sua importância para a democracia.
Alegar falta de recursos para sanar os problemas básicos não apenas da saúde, mas também da educação, do saneamento básico e de muitos outros direitos que são histórica e constantemente negados à nossa população, passa a ser uma afronta, um desprezo à inteligência do indivíduo e ao todo social.
É certo que a massificação de muitos desses direitos a partir da Constituição de 1988 acabou por onerar o Estado de forma excessiva. Porém, não é menos verdade que os recursos existem. Se não são utilizados é porque são mal geridos, ou porque não há interesse político em tal utilização.
No caso específico de nossa Santa Casa, cabe insistir mais uma vez. É preciso atuar em duas linhas de conduta. Primeiro resolver o problema das dívidas, o que só poderá ser feito politicamente, com dinheiro do Estado e da Federação. Em segundo lugar, é preciso discutir aberta e publicamente as práticas administrativas atuais e buscar melhorá-las por meio de consultorias especializadas.
Da forma como caminha essa novela, sua única contribuição é trazer para o brasileiro médio uma terrível sensação de engodo. Uma sensação que invade perigosamente o senso comum e fortalece uma série de percepções que enfraquecem a democracia e todo o ideal de vida em sociedade que ela representa.