09 de julho de 2026

Tumulto, droga e sexo


| Tempo de leitura: 5 min

Espécime, como termo utilizado no contexto da Zoologia ou da Botânica, significa um indivíduo que representa uma família, uma classe. Na essência, um modelo, uma amostra

Alguns temas ‘bombaram’ no portal GCN.net nestes últimos dias. Um, o casamento gay. Outro, o trânsito - caótico - da cidade. Outro, tão sério quanto preocupante, o tumulto regado a drogas e sexo no Dia do Estudante, na Praça N. S. da Conceição. É sobre esse último que falo hoje. O debate continua quente com base na repercussão das cenas pra lá de picantes, pra lá de descompromissadas com um mínimo de decência ou preocupação com o outro, pra de lá de Bagdá como ficaram alguns jovens entupidos de drogas e álcool e que se tornaram clientes dos prontos-socorros da cidade conduzidos por policiais, bombeiros; alguns sofridos e outros nem tanto, pais.

Triste, mas representativo. Quem viu as cenas, ouviu a gritaria, percebeu a forma violenta e arrogante que caracterizou a participação de boa porcentagem dos estudantes que foi à praça, concluiu que estava ali a “melhor amostra do que é juventude de nosso tempo”. Vou mais fundo. Com exceções, é evidente, reuniu-se ali a amostra de seres quaisquer, criados como nada por pais despreocupados que só se aliviam quando os veem longe – na escola, por exemplo; acabadas espécimes representativas de famílias que os têm feito à imagem e semelhança.

Uma maioria foi para a praça quando deveria estar em sala de aula – “que é uma chatice” – contrariando os mores do regramento social e blindados por leis estapafúrdias e garantidoras de que ninguém lhes pode por a mão ou corrigir.

Escrevo, sim, com extremada preocupação. Algumas de minhas colunas têm resultado em telefonemas de autoridades que me pedem “calma, porque não é bem assim”. Tenho respondido que, apesar de respeitar a autoridade que se obriga, por dever de ofício, a defender o texto legal e exigir cumprimento, não é desobediência civil que busco, ao gritar. Não comungo a ideia que temos de pactuar, entender que tudo é modernidade, modismo, e que uma hora passa. Estamos em meio “a um grande angú de caroço”, como diria minha avó paterna. Se deixar no fogo, queima. Se tirar, desanda.

A PERGUNTA QUE PRECISA SER FEITA
Conversei com comerciantes do centro. Contaram-me caso de relação sexual “protegida” por cerco garantidor de espaço privê aos performistas. Feito, foram saudados como heróis e ainda se exibiram: “a gente não disse que faria?” Contaram-me também sobre uso de drogas e de álcool, muito álcool. Parte dos casos, só parte, tornou-se boletim de ocorrência ou atendimento médico. Houve pais constrangidos recolhendo filhos e sendo ‘saudados’ como “coroa ultrapassado”, “tio de merda” e outras pérolas próprias do rico vocabulário de juventude que “se mata mas não se entrega”. Poderia continuar contando, mas prefiro perguntar a pais e mães responsáveis se sabem exatamente o que seus filhos fizeram naquele dia?

CARTA-CIDADÃ
Mais por força da determinação de professores do que das metodologias aplicadas nas escolas, há luz, sim. Tem jovens que receberam educação em casa e buscam cultura e cidadania na escola, que também foram à praça não para compactuar com pregadores da diversão, do lazer e da liberdade a qualquer preço, como pregou leitor esta semana (“Anarquia total já!!! Que isso sirva de lição para essa sociedade hipócrita e provinciana que é a de Franca. É isso ‘ae’ galera... Tem que revolucionar mesmo!!!”). O leitor Dársio Batista não se conteve:

‘Vamos agir como propõem? Vamos transar em público, confinar nossos corpos nas drogas, destruir tudo o que se vê pela frente, gritar palavrões? Sinceramente, entendo que (quem possui) um mínimo de (cérebro) acredita que existem questões a serem defendidas e meios inteligentes de fazer com que isso aconteça. Estou injuriado com jovens que se julgam independentes, mas que não bancam a comida que vai ao prato, a roupa lavada e passada que utilizam no dia a dia e ainda se acham no direito de criticar a sociedade que os sustentam. Se esses jovens não fossem fantasias, mas estudantes de verdade, iriam à praça para esclarecer e convencer as pessoas dos caos em que se encontra a Educação e da falta de uma melhor perspectiva por conta da roubalheira (do) meio político”

’SIGAM NOSSOS EXEMPLOS’
A professora Fabiana Nascimento da Silva, que atua em escola de educação infantil de dia e à noite alfabetiza, usa o Comércio em sala de aula para estimular gosto pela leitura e formar opinião crítica. Contou-nos que sua turma do EJA da Escola Antônio Sichierolli leu sobre o tumulto na praça e resolveu escrever. Percebam a sabedoria de adultos que só agora estão aprendendo a ler, que não conseguem compreender as razões que conduzem os jovens de hoje a confundirem tudo:

“Somos da turma de alfabetização de jovens e adultos da Escola Antônio Sichierolli e lemos sobre a confusão dos jovens na praça central no Dia do Estudante. Ficamos indignados e envergonhados com a atitude (daquele) grupo de jovens, que, na nossa opinião, não pode ser chamado de estudante, pois desconhece o mínimo de respeito e educação. Gostaríamos de dizer que alunos, como nós, é que somos dignos de comemorar. Não tivemos a oportunidade de estudar quando éramos jovens, mas hoje, apesar de toda dificuldade, idade, trabalho e cansaço, estamos aqui, buscando aprender e acima de tudo, buscando ser cidadãos melhores. Que esses jovens sigam nossos exemplos de verdadeiros estudantes! (...) Gostaríamos de nunca mais ver cenas como (aquelas) acontecerem.”

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br