08 de julho de 2026

Área nobre


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A sociedade de classes não é novidade para ninguém. Marx já a explicou há muito tempo. Gostemos ou não, ela é uma realidade, mesmo que não seja algo natural, como defendem alguns. Se olharmos para a história, vamos encontrá-la em todas as épocas e em todas as civilizações. Escravos, senhores, guerreiros, sacerdotes, cidadãos, servos, intelectuais, capitalistas, operários, não importa, os homens sempre se dividiram em segmentos de classes, alguns com poder e dinheiro, outros com conhecimento e capacidade de empreender e uma grande maioria com sua força de trabalho.

Em todas essas épocas, buscou-se sempre uma forma de distinção entre essas classes. As roupas, as moradias, os títulos honoríficos, o conhecimento, as medalhas, as insígnias, entre vários outros símbolos, foram importantes ao longo da história. Permitiram aos homens a fixação dessas distinções, atribuindo significados diferentes a seus detentores.

Na sociedade atual, nos diferenciamos principalmente pelo consumo. Pelas roupas/marcas que vestimos, pelo bairro/condomínio em que moramos e pelo carro que estacionamos em frente às casas maiores ou menores que construímos. Pelos restaurantes que freqüentamos e pela qualidade ou sofisticação dos pratos e petiscos que neles desfrutamos.

Diferenciamos-nos, também, pela faculdade que cursamos, pelas profissões que exercemos, pelas viagens que fazemos e por inúmeros outros produtos e serviços que sejam personalizados ou pouco acessíveis, o que nos torna mais exclusivos e nos traz mais status e reconhecimento por parte do todo social.

No entanto, esse status experimentado em vida parece não preencher toda a necessidade de diferenciação de que necessitamos. Pelo menos é o que se pode inferir em relação ao grande interesse que despertou a venda de túmulos localizados em áreas nobres do Cemitério da Saudade, agora disponibilizados para leilão pela Prefeitura Reportagem publicada pelo Comércio na terça-feira, 16/08, mostrou que mais de 150 pessoas já se inscreveram para participar do leilão, muitas delas com pretensões de arrematar mais de uma área para poder caprichar em túmulos mais grandiosos.

O interesse parece ter surpreendido a todos. No entanto, não deveria. A idéia de imortalidade não é nova entre os homens. Com suas pirâmides, os faraós egípcios já demonstraram isso muito bem. Mesmo que sejamos obrigados um dia a partir, lutamos para deixar uma marca que ratifique para a posteridade o nosso diferencial, fazendo com que a história e o tempo não esqueçam e não levem também ao pó aquilo que por aqui construímos.

Nesse sentido, diferenciar-se também no cemitério torna-se bastante compreensível. Estamos apenas mais humildes que os faraós. Como já não são possíveis as pirâmides, nos contentamos com os mausoléus, as alamedas principais e as áreas mais arborizadas. Talvez não alcancem o mesmo efeito, mas em todo caso, podem impressionar por algum tempo.