16 de março de 2026

Resposta a um leitor


| Tempo de leitura: 5 min
Mas não tenho nenhum problema em dizer que a hipótese de qualquer um dos meus filhos se tornar gay nem de longe me preocupa ou angustia

‘Temos bastante religião para nos odiarmos,
mas não o suficiente para nos amarmos’
Jonathan Swift,
escritor irlandês


Tenho dois filhos lindos. Júlia, a primogênita, é uma menina tão especial e inteligente que, muitas vezes, custo a aceitar que tenha nascido ontem mesmo, num novembro de 1998. Minha filha ainda não tem nem 13 anos e já sabe muito de muitas coisas. Conversa com desenvoltura sobre filosofia, literatura, gastronomia, fotografia e moda. Se o bate-papo for sobre futebol e música, melhor nem discutir. A razão muito provavelmente estará com ela, profunda conhecedora da história do rock e, para minha tristeza, do São Paulo Futebol Clube. É fã de carteirinha do Rogério Ceni e de tudo quanto for associado ao Tricolor. Minha filha ainda é uma menina, mas não por muito tempo. A cada dia, seus traços de criança perdem definição num rosto - e num corpo - que rapidamente avança para transformá-la em mulher. A vida é assim.

João, o caçula, é um ‘mini Junior’. A definição é da própria irmã e não sei se, exatamente, elogiosa. Mas o fato é que ele é a minha cara, dos cachos ao nariz, passando pelas covinhas. Acabou de fazer um ano. Anda para todos os lados e interage bastante, ainda que sem falar. Por enquanto, emite sons incompreensíveis para os adultos mas que, tenho convicção, fazem todo o sentido para ele. Ama pão, queijos de todos os tipos, carne, nhoque, melão e chocolate na mesma medida em que detesta alface e mamão. Não adianta tentar enganá-lo. Se alguém disfarça a folha verde no meio de qualquer outra comida, João identifica e cospe longe. Com o mamão, é pior. Sente o cheiro de longe, tranca a boca e não tem conversa. Não come mesmo. Apesar de voluntarioso, João é simpatícíssimo e muito sociável. Sorri para todo mundo, brinca, beija sem economia. Adora jornais mas ainda não faz, infelizmente, distinção entre o Comércio e qualquer outro. Para ele, todos servem e não há dia que ele não espalhe páginas e mais páginas pela sala, sua brincadeira favorita.

Amo profundamente meus filhos, convivo com eles e, obviamente, me preocupo muito com o que andam fazendo. Penso no que será de suas vidas, nas surpresas que o futuro certamente reserva. Nesta semana, em particular, pensei com mais intensidade ainda na Júlia e no João. Em parte porque a proximidade do Dia dos Pais sempre evoca retrospectivas, balanços, memórias, projeções.

A outra razão para ter pensado tanto nos meus filhos foi o desafio proposto por um leitor que se identifica apenas como ‘Celso’ em comentário postado na última terça-feira no portal GCN. O que motivou a manifestação do leitor foi a decisão do juiz Humberto Rocha, da 3a. Vara Cível, de proibir os cartórios da cidade de celebrar casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Celso é um dos que aplaudiram a medida. É bom que se diga que a decisão do juiz não é contraditória nem tenta anular os efeitos daquilo que o STF (Supremo Tribunal de Federal) tornou legal em maio deste ano, na histórica sessão em que reconheceu a validade das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Humberto Rocha decide sobre o ‘casamento’ e não sobre ‘união estável’, nos limites do que sua função permite e sem contrariar a postura da Corte Suprema do Brasil. É até provável que o STF acabe por estender sua decisão também para o casamento mas, por hora, os juízes podem arbitrar de um jeito - ou de outro.

O que me levou a uma profunda reflexão nesta semana não foi o aspecto legal da decisão, mas os comentários decorrentes dela. E, especialmente, o desafio feito por Celso, crítico ferrenho dos homossexuais. ‘Quero ver a primeira mãe que disser assim: Nossa, como estou feliz, estou grávida e se tudo correr bem meu filho (a) será gay. No dia que eu ouvir isso (dito com sinceridade) de alguma grávida eu me renderei (à)’, vaticinou.

Não sou mãe e nem estou grávido, é óbvio, mas não tenho nenhum problema em dizer, publicamente, que a hipótese de qualquer um dos meus filhos se tornar gay nem de longe me preocupa ou angustia. Não torço para que sejam gays simplesmente porque não torço também para que sejam heterossexuais. Não acredito que a sexualidade seja uma escolha. É uma característica. E, assim, o que eles farão no ambiente privado de sua intimidade simplesmente não é da minha alçada. Quero apenas que sejam felizes, que amem e sejam amados por quem escolherem, e que nunca sintam vergonha de coisa alguma.

Há muitas outras coisas, entretanto, que passam ao largo dos comentários de Celso mas que me preocupam desde já. Ficarei enormemente envergonhado se meus filhos não forem pessoas decentes, íntegras e honestas, que honrem a palavra empenhada. Não reconhecerei neles uma extensão de mim se qualquer um descumprir acordos que, assinados ou não, tenham firmado com quem quer que seja.

Terei muita dificuldade de aceitar filhos que não gostem de trabalhar e, tanto pior, se forem do tipo que invocam uma dor de cabeça qualquer para deixar de cumprir seus compromissos. Tampouco me sentirei confortável com filhos que sejam incapazes de prover o próprio sustento ou que não saibam viver nos limites de suas possibilidades, sempre com dignidade.

Ficarei decepcionado se meus filhos não tiverem opinião sobre questões fundamentais, quaisquer que sejam suas crenças e convicções. Ficarei entristecido se Júlia e João só reclamarem do mundo ao invés de lutar para transformá-lo naquilo que acreditam ser o melhor.

Sofrerei de vergonha se meus filhos humilharem alguém gratuitamente, se agredirem uma pessoa flagrantemente mais fraca ou se esquecerem um dia que nasceram em Franca e que foi desta terra que tiramos o sustento que possibilitou a eles a vida, a educação e os valores que tem.

Júlia e João ainda não são sexualmente ativos mas é claro que, num futuro não muito distante, cada qual viverá suas experiências. Minha única torcida é para que meus filhos tenham uma vida plena, com muita saúde, sempre com força para enfrentar as adversidades e sabedoria para aproveitar intensamente os instantes de alegria, de forma ética, decente e honrada. Héteros ou gays, Júlia e João serão sempre amados, defendidos e apoiados. O gênero, pouco importa.

Quanto ao Celso, nem de longe espero sua ‘rendição’, mas um pouco de tolerância não faria, certamente, mal algum. Nem para ele nem para todos os outros que seguem considerando o homossexualismo uma ‘aberração’. O que nos transforma em ‘monstros’ não são nossas escolhas sentimentais, mas sim o que fazemos na vida. Que ninguém duvide disso.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br