08 de julho de 2026

Genética


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Em julho de 1961 acompanhei meu pai, Domingos Lima, ao ginásio do Clube dos Bagres. Ele atendia convite da Federação Paulista de Basquete

Na ocasião recebeu, com companheiros seus de outras épocas do basquete, medalha de mérito – que guardo com carinho – por haver participado, como jogador, dos primórdios da modalidade em Franca, início do século passado. Franca sediava, na oportunidade, o IV Campeonato de Basquetebol do Interior do Estado de São Paulo, honraria concedida pela Federação a Franca, cidade que já respirava basquete desde 40 anos antes e despontava como uma das equipes mais competitivas dos campeonatos oficiais da época. Nosso time era, sob o comando técnico do professor de Educação Física da Escola “Torquato Caleiro”, Pedro Morilla Fuentes, o Pedroca, o embrião da equipe que, dali em diante, se tornaria visível nas principais competições paulistas e brasileiras: Wellington Jorge, Lázaro Henrique, Carlos Mellim, Elias, Marcos Magrin, Osvaldo, Heraldo, Hélio Rubens, Anjinho Giannechini, Antônio Roberto, Hamilton Cruañes e Tonho.

A equipe a ser batida na época era o XV de Piracicaba (Pecente, Ênio, Tozzi, Nascimento, Wlamir Marques) base da seleção da modalidade. Apreciamos o gosto das vitórias alcançadas no torneio e apostamos na melhoria. Ao longo dos próximos campeonatos chegariam, como reforços, os outros irmãos de Hélio Rubens (Totô e Fransérgio, filhos de Chico Cachoeira, companheiro de meu pai nos anos heróicos do início do século), Alberto Carraro, Zé Luiz e Milton Olaio, Robertão José Corrêa, Carlão Roberto Batiston, Edson Ferracciu. Daí em diante a história que fez da cidade a “capital nacional do basquete” é conhecida pela maioria dos francanos e de torcedores de várias parte do mundo.

“Seu” Domingos esteve no centro da quadra na abertura do torneio, olhos marejados, coração batendo forte, vaidade sadia de saber-se reconhecido. Ao voltar ao lugar que lhe reservaram nas cadeiras do ginásio, ainda emocionado, recordou: “desbravamos campos de terra batida sujeitos a sol e chuva, jogando com bolas de cobertão que se tornavam pesadíssimas quando chovia, mas tudo valeu a pena. O basquete tornou-se referencial para nossa gente, socializador, construtor de personalidades resolvidas porque ensina humildade nas vitórias e, especialmente, nas derrotas. Veja, meu filho, quantos se dedicam hoje ao esporte que pratiquei, veja este clube e veja o brilho no olhar dos torcedores”. Futurólogo, finalizou: “A continuar assim, ninguém vai segurar nosso time e nossa cidade. Lembre-se, no entanto, da história e de seus personagens.” Encerrou, reforçando: “nada cai do céu por descuido”.

Chegamos à final masculina daquele torneio. O XV sagrou-se campeão, mas o torneio cravou o basquete definitivamente na alma do francano.

PAIS QUE SE PERPETUAM
Chico Cachoeira fez Hélio Rubens, Totô e Fransérgio; Hélio Rubens, Helinho; Edson Ferracciu, Demétrius; Robertão José Corrêa, Marcelo; Marco Aurélio Pegolo, o Chuí, Cauê; Paulão Berguer, fez Dudu e Léo; Gilson Trindade de Jesus, Gilsinho; Fausto Giannechini, Ricardo; Raul Togni, Raulzinho. Coisas da genética, que também – tem quem diga que não –, transfere talentos. “Seu” Domingos fez a mim, que quebrei a regra e não repeti sua vitoriosa história no basquete de Franca – um seu companheiro de time e de época, Demétrio Soares, registrou, em diversas crônicas, que Vigário (como Domingos Lima era conhecido no meio esportivo), era “o cara das cestas de perto, de longe, de qualquer lugar, terror das equipes adversárias”) – e fui para o jorrnalismo. Herdei o gosto pelo esporte, fiz futebol e voleibol, mas ele cobrava-me para que preservasse a história. Tento. Minha herança, como jornalista, se repete em meu filho, Cassiano. Viu como é?

DIA DOS PAIS?
Vivo fosse, meu pai teria feito 106 anos em 4 de agosto. Todos os dias – porque meu velho foi referencial – penso fortemente na herança de cidadania que me deixou. Quase ainda o vejo com seu matreiro “meio-sorriso”, trocando os nomes das coisas e, certo da atenção que despertava com esse ‘estudado’ ato falho, deixava fluir suas ricas experiências. Não preciso do Dia dos Pais assinalado no calendário para me lembrar dele...

CARTA CIDADÃ
O Juiz Corregedor de Franca, Humberto Aparecido Rocha, determinou esta semana aos Cartórios de Registro Civil locais, que não realizem casamentos gays. Seguiu-se intenso debate. Um dos comentaristas, Washington, leitor do Comércio, foi pedagógico:

“Aos que criticam a posição do excelentíssimo juiz devem, primeiramente, analisar o que foi aprovado pelo STF. Em momento algum o STF aprovou casamento entre pessoas de mesmo sexo. O que foi, sim, aprovado, foi a união estável, (...). O que o juiz fez foi (impedir que) documento de união estável se torne certidão de casamento civil (...). Em momento algum o juiz passa por cima do STF (como alguns leitores e internautas colocam). Em síntese: o STF nunca aprovou lei permitindo casamento homoafetivo e sim, “união estável”, bem diferente de casamento civil.”

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br