08 de julho de 2026

Mundo estranho


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Era muito mais fácil analisar e entender o mundo quando estava dividido pelo alinhamento político que havia no período da Guerra Fria. Sabíamos dizer quem era alinhado aos Estados Unidos e quem era alinhado à União Soviética e, acreditem, havia um país, exótico e desconhecido, que pouco crédito se dava a ele, a China.

Hoje, poucos anos depois, a União Soviética acabou, a desconhecida China tornou-se um gigante e assusta a todos e, os Estados Unidos se enfraquecem. Como se essa importante mudança geopolítica não bastasse, ainda presenciamos o povo nas ruas, em todos os cantos do mundo e pelos mais diversos motivos.

O mundo árabe convulsiona-se. Estruturas de poder familiar e tribal, arcaicas e desatualizadas com os avanços mundiais e sociais, caem e deixam um vácuo preocupante porque mostram a fragilidade da formação social e cultural das nações árabes. Todo o conflito histórico, observado no domínio de uma tribo árabe sobre outra e, muitas vezes, de forma cruel e violenta, aflora atualmente nas revoltas civis que lá estão ocorrendo, deixando um cenário de incertezas sobre o seu futuro.

O considerado mundo civilizado e desenvolvido (Europa, Estados Unidos e Japão) padece de uma crise econômica e financeira sem precedentes e que, também, mostra todas as suas contradições internas. Nos Estados Unidos e, principalmente, na Europa, há o temor de que essa crise provoque o surgimento de movimentos nacionalistas e xenófobos, acirrando as agressões entre ‘nativos’ e ‘estrangeiros’. O europeu começa a mostrar não ser tão simpático aos imigrantes provenientes dos países pobres (muitos europeus e ex-soviéticos) e ex-colônias.

Isso coloca a União Européia em crise e compromete o Euro como moeda forte. Isso compromete a paz na Europa. Os últimos acontecimentos de violência na Inglaterra demonstram, claramente, a falta de rumo e de solidez nas estruturas políticas e sociais da Europa e as crises econômicas que ‘visitam’, atualmente, vários países europeus, servindo como prenúncios para mudanças ainda mais profundas. Nos Estados Unidos, a crise econômica desnuda um modo de vida ilusório e que deve servir de exemplo para nações que começam, como o Brasil, a trilhar o caminho da riqueza, do desenvolvimento, da grandiosidade e do consumo desenfreado. Ainda não dá para se prever o que, de fato, ocorrerá na economia americana e, como consequência, na economia mundial. Não sabemos ainda o quanto os países estarão imunes ao efeito dessa crise, somada às dificuldades econômicas na Europa e no Japão.

Na outra mão da história, nações cheias de contrastes internos (sejam culturais e/ou socioeconômicos) aportam nesse mundo globalizado e altamente interdependente. Querem crescimento, ascensão social de seus povos, participação nas decisões mundiais e possuem uma enorme sede de poder. Avançam por sobre os destroços causados pela crise econômica e, sem reflexão e planejamento, correm o risco de produzirem, futuramente, estragos ainda maiores do que os atuais. Essas mudanças estão ocorrendo rapidamente e não deixam muita margem para acompanharmos e entendermos aonde chegarão e se serão, a curto prazo, positivas ou não. De qualquer forma, fica a sensação de que o mundo está passando a limpo a sua história sem perder tempo ouvindo o homem.

Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário