Não conheço Reynaldo Gianecchini. Se conhecesse, o procuraria agora mesmo. Solidária, só pegaria na mão dele
Evitaria qualquer uma das expressões ou palavras de comando tipo força, tenha fé em Deus, lute, coragem, que vida ingrata, por que você? Isso não ajuda nada. A reação inicial do atingido por uma bomba dessas - a notícia de que carrega um câncer - é ficar fulo com qualquer bandeira ou santo colocados à sua frente.
Sente-se impotente, discriminado, infeliz, com medo danado, revoltado, abúlico. Se reagir diferente, não é humano. Humanos chutam o balde. Falo com conhecimento de causa, estive na mesma situação.
Durante meses e anos queixei-me de hematúria que seria decorrente da movimentação de cálculos renais. Não tinha dor, fumava, achava que era imortal, tomava muita água, caminhava bastante, era magra, poderosa, olhava todo mundo do alto, achava que doença não me pegava. Fazia exames toda vez que o médico mandava. Passei por litotripsias. Sangrava, o profissional mandava tomar mais água. A vida seguia. Mas não eram cálculos. Incomodada, procurei outro médico que percebeu anormalidade. Ágil, fez a cistoscopia que revelou tumor grudado na parede da bexiga.
Fui para a mesa cirúrgica, nem deu tempo de pensar. Meu mundo caiu. Chamei os filhos, foi aquela choradeira. Minha revolta era maior que qualquer possibilidade ou esperança de cura. Cura, como? Era câncer. O novo médico mandava ter calma, ficar tranquila, precisava ver os resultados dos exames para avaliar o tumor, a profundidade de suas raízes, se havia metástases. (Só de pensar nesses termos, ainda sinto calafrio).
Sabe solidão? Eu sei. O sofrimento é solitário. Tinha mãe, irmã, irmãos, marido, filhos, netos. Tinha até amigos. Fiquei sozinha. Ninguém conseguiu entrar na minha dor. Ou eu não deixei, provavelmente. Os amigos tentaram ser solidários, mas era fevereiro, estavam com programa de férias marcado, foram-se. Os filhos tinham filhos. Marido tentou, mas eu me fechei em copas. Irmã e irmãos, voltaram para suas famílias. Mamãe, do tempo em que câncer era palavra impronunciável, ficou tão apavorada que um dia me perguntou se era verdade que eu estava com ‘aquela doença’. Construí minha ostra, entrei nela e fim de papo.
Não sei que palavras dizer num primeiro momento a alguém que recebeu tal diagnóstico e está despedaçado. Não sei se exemplos de cura podem surtir efeito alentador porque eles não retiram a espada de cima da cabeça de ninguém. É irritante ouvir alguém sadio dizer palavras bonitas e confortantes. E ninguém sente a nossa dor. Ela é intransferível, tem cláusula de inalienabilidade.
No momento em que nossa fragilidade vem à tona, nossos sonhos de imortalidade caem por terra, nossa esperança de longevidade vira pó, ficamos sozinhos. Absolutamente sozinhos. Revoltados. Lembramo-nos de exemplos paralelos de pessoas que passaram pela difícil experiência; da euforia exagerada quanto aos resultados do tratamento e da frustração diante do insucesso; da demonstração inútil de fé na cura. O medo determina todas as nossas próximas atitudes. O ódio passa a ser o estímulo que nos impulsiona. A impotência é real e paralisante.
Aí, justamente por sua condição humana, na etapa seguinte cada pessoa atingida elabora sua própria maneira de digerir a dor e o medo. Umas se aferram à religião. Há quem parta para a negação, acredita-se curado e cruza os braços. Há os estóicos: tratam-se, mantêm-se calmos, não se desesperam. Resistem. Há, ainda, aqueles que berram inutilmente. Humanos são imprevisíveis. Há, ainda, os que de tão fragilizados, procuram e pedem ajuda terapêutica profissional. Por isso, se me encontrasse com Gianecchini, apenas pegaria na sua mão e lhe diria apenas para fechar os olhos, respirar fundo, sempre que agoniado. O tsunami vai passar e ele vai descobrir qual caminho tomar para elaborar sua própria dor. Breve momento de paz, que eu chamo de buscar a Esperança, o sentimento que permanece no fundo da caixa que chamamos alma, quando todos os outros se esvaíram.
DOR
Você compartilha doce. Tem cúmplices na alegria. Pode ter conivência se resolver atacar e pilhar. Quando você está na boa, todos são seus amigos. Você encontrará companhia para gastar seu prêmio da loteria. Colaboradores aparecerão aos montes para tomar seu whisky 12 anos ou tomar seu exótico vinho tcheco. Mas a dor... a dor é sua. É sua só, não é de mais ninguém. A dor é de quem tem. É o que lhe aquece, sem lhe dar calor. (Mistura da sabedoria paterna com música de Marisa Monte e Arnaldo Antunes).
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br