Toni Salloum tinha 18 anos quando deixou a pequena cidade de Marmarita, na Síria, em direção ao Brasil. Era 17 de março de 1961. Ficou uma semana em São Paulo e seguiu para Franca. Pretendia visitar tios e primos que moravam na cidade. A ideia era ficar dois ou três meses com os parentes. Não sabia falar nada em Português. Mas ele se apaixonou por uma jovem de 15 anos e decidiu ficar. Maria Zélia, a primeira e única namorada, se transformaria em esposa três anos depois.
Cinquenta anos se passaram. O casal prosperou junto. Toni Salloum é um dos mais respeitados empresários da cidade. É dono de uma sólida fábrica de calçados, diretor da Francal, responsável por empreendimentos imobiliários de sucesso e investidor do setor agropecuário. Emprega diretamente cerca de 400 pessoas. Possui forte ligação com a Igreja Católica e está sempre engajado às causas sociais. Nesta noite, meio século após pisar pela primeira vez na cidade, será homenageado pela Câmara Municipal com o Título de Cidadão Francano.
Toni herdou dos povos árabes o tirocínio para os negócios. A habilidade para investir o transformou em um empresário de sucesso. Há 45 anos mantém na Avenida Brasil um empresa de calçados que leva o seu nome. Só lá são 328 funcionários. A produção diária é de 1,2 mil pares. Se orgulha em dizer que foi o segundo fabricante da cidade a exportar para o exterior. Quando a Francal ainda engatinhava na cidade, se tornou diretor da empresa, hoje, uma das mais fortes do País no setor.
O êxito alcançado com o calçado também se verificou na construção civil. Trinta anos atrás, construiu o Barramares, o primeiro prédio da cidade e um dos mais sofisticados. Hoje, já são 11 edifícios de luxo levantados por sua empresa FrancaInvest, entre eles, o Gávea, Golden Gate, Costa do Sol e Ibiza. O requintado condomínio fechado, Rodrigo Salloum, onde um terreno custa cerca de R$ 320 mil, e o Espaço Cedro, salão de eventos, também levam sua assinatura. A construtura chegou a ter 130 funcionários. Hoje, são 47. Toni é dono de três fazendas, Arco Azul, Santa Maria e Santo Antônio. Cria 450 cabeças de gado nelore e cultiva 100 alqueires de cana. Cavalos puro sangue são um hobby.
‘SORTE’
“Minha sorte aqui em Franca brilhou porque minha mulher foi uma estrela na minha vida. A Zélia foi meu braço direito. Quando casei, não tinha dinheiro para nada “. A lua de mel foi em Poços de Caldas (MG). Pediu dinheiro emprestado para viajar em uma Kombi velha. No hotel, comeu pão com azeite e sal para economizar.
O primeiro emprego em Franca foi como balconista em uma armazém na Saldanha Marinho. A experiência durou pouco mais de um ano. Depois, foi vender sapatos. O dia 10 de julho de 1965 representou uma guinada na vida do empresário. “É uma data histórica. Ali, parece que nasceu uma estrela na minha vida”. Foi quando nasceu o primogênito Toninho. A mulher e o filho estavam internados na Santa Casa. Toni não tinha dinheiro para pagar a conta. Atravessou o Centro para tentar um empréstimo. Na Praça Barão, encontrou-se com Willian Salomão, dono de uma pequena fábrica na Padre Anchieta. “Ele me convenceu a comprar a fábrica para pagar aos poucos. Acabei aceitando e pensei: ‘Lá vai o Toni esquentar a cabeça sem entender nada, nada de sapato’. Fui tocando e o resultado financeiro melhorou”.
Cinco anos depois, a fábrica ficou pequena e Toni comprou o terreno da Avenida Brasil, onde está até hoje. Foi buscar no Paraná as madeiras que usou na construção do prédio. Descobriu que era um bom filão. Fez amizade com o madeireiro Atílio Moreira e entrou no negócio. Levava sapato para vender no sul e trazia madeira para Franca. “Minha felicidade foi a madeira. Virou um comércio fora de série. Comecei a sentir o lucro da madeira dez vezes mais do que o sapato. Foi quando senti o gosto pela construção”.
Aos 70 anos, completados no dia 21 de fevereiro, Toni é pai de quatro filhos e avô de cinco netos. Há 13 anos perdeu o filho Rodrigo que, recém formado veterinário, morreu aos 22 anos vítima do hantavírus.
O empresário é profundamente ligado à igreja. Em junho, o Núncio Apostólico Dom Lorenzo Baldisseri, representante do papa no Brasil, veio a Franca para participar das comemorações dos 40 anos da diocese e ficou hospedado na casa dele. Gosta da política. Paulo Maluf é um amigo próximo. Auxilia entidades assistenciais e é um dos embaixadores do leilão da Apae. “Muita gente confundia as coisas, mas a razão do nosso sucesso é o trabalho sério e honesto. Nunca gostei de ser o maior. Sempre gostei de ser o mais sólido. Tenho orgulho de ter funcionários comigo há 30, 35 anos. Tenho de agradecer a cidade. Todo o meu trabalho foi investido aqui”.