Os mais velhos ainda devem se lembrar da música ‘A Praça’. Com letra saudosista, cantava os tempos em que as pessoas ali se concentravam. Tempos em que os bancos se dispunham tranquilamente à prosa e ao namoro. Tempos em que o pipoqueiro era cercado pelas crianças. Tempos mais calmos, é verdade, em que o próprio tempo corria mais preguiçoso.
Talvez até pudéssemos arriscar: ‘bons tempos aqueles’! Mas o saudosismo é perigoso, parceiro íntimo da ingenuidade. Como diria Mário Quintana, ‘os tempos são sempre bons, nós é que vamos ficando ruins com o passar do tempo’.
O estado de abandono a que está relegada boa parte de nossas praças, conforme demonstrou o Comércio, em reportagem publicada na terça-feira, 02/08, deve nos levar a uma reflexão mais isenta. É certo que a praça é simbolicamente o mais importante espaço do povo. Foi nela que se iniciou a democracia ocidental. Foi nela que muitos acontecimentos históricos tiveram lugar. Foi nela também que se deram inúmeros fatos corriqueiros e cotidianos, fundamentais para todos os indivíduos.
No entanto, os símbolos não duram para sempre. Mudam com o tempo, assumindo outros significados, às vezes até um pouco menos significativos.
É o que parece estar acontecendo com as praças. Aquele banco, aquelas flores e aquele jardim já não são os mesmos, não porque tenham mudado de aparência, mas porque talvez pouco signifiquem para as pessoas deste começo de século. A sujeira que hoje as invade, a bandidagem, as drogas e a malandragem não se impuseram pela força, ao contrário, apenas ocuparam espaços já bastante vazios.
Absortas em uma sociedade cada vez mais midiática, as pessoas foram aos poucos trocando as praças pelas salas de televisão, pelo conforto de suas casas, pela tranqüilidade do lar, pelos bares e restaurantes, pelo shopping ou por outros espaços de entretenimento que começaram a invadir a moderna sociedade em que vivemos.
É bastante compreensível. Para um mundo que gira em uma velocidade bem maior do que aquela experimentada no passado, a praça talvez tenha se tornado um pouco enfadonha, sobretudo para os mais jovens, geralmente mais propensos à noite.
Sentar em um banco de praça, sem serviço de mesa, garçom ou couvert, sem nem mesmo garotas que lhes reconstituam o ‘footing’, não parece ser um programa com boas chances de escolha.
Nesse sentido, dizer que as pessoas deixaram de ir à praça por causa da violência, da sujeira ou da bandidagem mereceria uma análise mais acurada, na mesma linha do ‘quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha’.
Se as praças ainda estivessem cheias de gente, com pipoqueiros, doceiros e crianças correndo por toda parte, bem como bancos plenos de amigos e namorados, talvez a sordidez não houvesse se instalado, deixando intactos seus bancos, suas flores e seu jardim. Talvez.