09 de julho de 2026

Papai, não corra tanto


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Sempre existiu órfão de pai vivo. Pela tendência natural da própria maternidade, a mulher costuma(va) estar mais próxima do filho. No entanto, os últimos tempos têm sido pródigos em aumentar também o número de crianças rejeitadas até pela mãe. Os relacionamentos relâmpagos entre homem e mulher podem ser a causa deste abandono infantil crescente.

Quando uma criança nasce em uma família, nunca quer a separação entre o pai e a mãe. A letra da música norte-americana Daddy, don’t you so fast (Papai, não vá tão rápido, em tradução livre e poética), interpretada por vários cantores e que se tornou conhecida na voz de Wayne Newton, mostra isso claramente através do pedido inocente de uma menininha.

De acordo com os versos, o amor entre um casal havia acabado. Por isso, o homem pegou sua mala e saiu de casa. Sua filhinha correu atrás, pedindo para o pai não andar tão depressa, porque ela estava caindo, por tentar acompanhá-lo. Ele olha para trás. Não suporta ver os olhos da menininha cheios de lágrimas e de desespero. Resolve então voltar da calçada mesmo, para fazer uma nova tentativa de viver junto com a mãe dela.

Essa abnegação paterna anda muito difícil de acontecer atualmente. A maioria dos pais sai de casa (isso, quando entrou!) com muita facilidade, deixando para trás filhos bem pequenos, que crescem sem carinho paterno. Além do mais, a criança deixa de contar com a imprescindível referência masculina. Ao crescer, o filho pode se tornar um estranho para a figura paterna. E vice-versa.

Ligando os versos musicais com a passagem inexorável do tempo, pode ser que aconteça de um dia o pai precisar do filho que deixou lá atrás. Se não houve desprendimento paterno na época, como alinhavar as palavras cantadas pela afinada dupla brasileira Lourenço e Lourival na música Pedido de um Pai: ‘Filho, quero pedir algumas coisas pra você/ Faça um esforço se puder me atender/ Quando você me chamar e eu não ouvir/ Tente entender a minha falta de audição’.

O pai continua pedindo na canção brasileira: ‘Filho, se em algum momento eu tiver algo pra falar/ E por acaso minha voz você não escutar/ É que eu perdi a resistência do pulmão/ Se eu ficar resmungando com tolice/ Não se preocupe, é o início da velhice/ E para isso não existe solução/ Filho querido, não esquente a sua cabeça/ É normal que o ser humano envelheça’.

Envelhecer é fato que pouca gente consegue imaginar. O envelhecimento fica distante para todo mundo. Só acontece com os outros. Claro está que a presença constante de um pai na vida do filho não significa uma futura aproximação entre ambos. Entretanto, quem não participa da criação ou não convive harmonicamente com a família, dificilmente vai ter uma relação de proximidade com os filhos no futuro, que parece não chegar nunca. Mas chega!

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br