07 de julho de 2026

Solidariedade


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Pé-de-chinelo, diz a sabedoria popular, aplica-se a alguém que vagabunde, cace o errado para fazer, gente ruim, miserável “de uma figa”, que não vale nada

A sabedoria popular também diz que há um código de ética entre bandidos. Não admitem matadores de crianças, estupradores e nem os que assaltam asilos, orfanatos, creches. Também não fazem boas caras aos que roubam daqueles que roubam. Um interessante texto, quase uma rendição à insegurança e à violência que massacra, assinado por Diogo Guerra – disponível em http://www.jornalcontexto.com.br/Cronicas/Codigo.htm – propõe uma “gatunagem cidadã”, em uma negociação sobre “direitos e deveres do ladrão e do assaltado”, para que “pelo menos, não haja grandes perdas para os dois lados”.

Pois é. Neste cenário marcado por cercas elétricas, grades e alarmes de todos os tipos a ‘garantir’ o cidadão de bem preso em casa; gatunos e meliantes de todas as estirpes livres, leves e soltos – prestes a enfrentarem a concorrência dos milhares que nova lei vai devolver às ruas “porque não cabe mais ninguém nas celas de verdade” – a vergonha na cara caiu, desapareceu, virou nada...

Pés-de-chinelo entraram na Creche “Maria da Cruz”, lotaram a perua Kombi da entidade com gêneros alimentícios que seriam distribuídos a 60 famílias carentes e pegaram o rumo... Fosse para alimentar bocas famintas, menos pior, mas, certamente, trocaram por droga. Há muitos lugares desclassificados onde não se pergunta pela procedência e troca-se por graninha ou droga.

Lembro-me da época do delegado Guido Bettarello. Disse-me ele, certa vez, que bandido respeita bandido que respeita gente idosa, criança, mulher grávida e gente que ajuda gente quem não tem praticamente nada. Hoje, ao recordar, sou obrigado a colocar o “respeita”, de Guido, no passado. O tal do código de ética deles virou - literalmente - pó. Fosse diferente, os pés-de-chinelos seriam ‘gentilmente convidados’ a devolverem a Kombi com os alimentos. Fora a surra...

Na ausência da velha “ética entre ladrões” foi preciso, de novo, que cidadãos interviessem. José Vargas, pivozão de nosso basquete de outras épocas, hoje dirigente de esportes da FEAC – aliás, por que ainda não deram um título de cidadania francana a ele, Câmara?; Fabiano Siqueira, o às vezes “turrão” presidente da torcida Dragões da Veterana mas sempre comprometido agente de boas causas; Mateus Cornélio, presidente da Escola de Samba “Acadêmicos da Vila Formosa” e Anderson Pinheiro, o colunista responsável pela Insight deste Comércio compuseram, “amolando” amigos, pedindo aqui e ali, levantando mais de 700 quilos de alimentos e direcionando tudo à “Maria da Cruz”.

Resolvida a questão dos alimentos, resta a Kombi. Resta, não. A Kombi ainda não foi encontrada. Será que após esta lembrança o “código de ética” volte a valer e o transporte da entidade amanheça à porta da entidade? Se não reaparecer, quem sabe outros Vargas, Siqueiras, Cornélios e Pinheiros unam forças para transformar a grande abóbora que lá deixaram em “carruagem” para a “Maria da Cruz” continuar fazendo o bem com a rapidez de antes?

EXEMPLO
Leonildo Ferreira, dono da Sapatoterapia, criou sapato que o Instituto Pró-Ambiente, do Rio Grande do Sul, atestou como primeiro calçado totalmente biodegradável do País. Gostou do que aprendeu sobre sustentabilidade. Procurou o Promotor Fernando de Andrade Martins, do Meio Ambiente e, voluntariamente, ofereceu-se para adotar causas no setor. Martins falou em recuperar áreas degradadas de pequenas propriedades rurais. Leonildo topou. Árvores demoram a crescer, mas Leonildo diz que isso não importa. “O que vale, é o mundo melhor que podemos fazer”.

COMENTARISTA CIDADÃO
A partir desta semana publico comentaristas cidadãos, ampliando suas vozes. O grito dos bons tem que vencer o sorriso cínico dos maus. Começo com o leitor Ronaldo Pereira da Silva e seu comentário sobre duas senhoras espancadas por motociclista “fechado” no trânsito (matéria disponível para leitura em http://www.gcn.net.br/jornal/index.php?codigo=138828):
“Difícil eleger o que seja mais estarrecedor, mas o desfecho da situação é, no mínimo, aterrador. Sabemos que o frouxo Código Penal brasileiro estipula certas regras para a prisão em flagrante delito. Agora, esse cidadão (motociclista) sair feliz da vida de uma delegacia depois de ter arrebentado com uma mulher da forma (descrita), é a perversão definitiva dos valores da nossa sociedade. Se quando os policiais chegaram ao local dos fatos a mulher estava ainda apanhando, caída ao chão, e isso não configura flagrante, o que significa flagrante, então? Será que a vítima tem de ligar antes para a polícia e dizer “olha, venham porque acho que eu vou apanhar, ou ser assaltado, ou ser assassinado, não percam o flagrante?”. Que espécie de sociedade nós estamos querendo construir quando deixamos na rua um motociclista que reage dessa maneira a uma ‘fechada’ no trânsito? Como vamos ensinar paz aos nossos filhos com cidadãos como esse rindo da nossa cara?”

CONSELHO DE LEITORES
Hoje tem reunião. O grupo atual é a quarta formação de leitores deste Comércio, revistas, ouvintes da Difusora e internautas do portal GCN.net, dispostos a nos auxiliar com observações, críticas e ponderações que permitem correção derumos, aperfeiçoamento editorial e comprometimento com nossa audiência. Eles, com imensas – ingentes – doses de voluntariado, olhar atento e boa vontade, são o retrato da “temperatura” com que nossas produções jornalísticas impactam o universo de consumidores que se debruça sobre as capas, páginas de rosto, frontispícios – Assuero Quadri Prestes, lenda do ensino da língua portuguesa desta cidade dizia que o homem é melhor quando é capaz de dizer o que pensa de muitas maneiras diferentes – de nossas mídias. Então, bem-vindo ao novo repto, Conselho. Estamos juntos neste desafio, incitação à luta, nesta provocação que faz crescer ambos os lados em torno de ‘boa mesa recheada de acepipes’ – petiscos –, como definiria a colunista Lúcia Helena Brigagão.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br