08 de julho de 2026

Estive na Índia (3)


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Arunachala! Chegamos em Tiruvannamalai mais ou menos às 6h da tarde. Viajamos quatro horas em um trânsito caótico. Essa é outra questão para se vivenciar na Índia: lá somos obrigados a perder todas as referências que já construímos sobre trânsito e, se no início nos apavoramos, depois que conseguimos nos integrar e nos entregar àquela nova forma de transitar, fica interessante curtir, gostar das surpresas e então o medo vai se enfraquecendo, se dissipando... Passamos a nos sentir parte daquele contexto e então percebemos que nada é tão absurdo, pois o indiano além de assim se locomover no seu dia a dia, ele não se irrita. Não há gritos no trânsito, nem xingamentos, muito menos reclamações. Apenas as buzinas fazem parte da sonoridade das ruas, mas elas não são sinal de irritação e sim de alertas. Enfim, os indianos dirigem seus carros, nas situações mais incríveis, de forma calma e controlada.

Estamos então aos pés do Arunachala, montanha sagrada, com suas inúmeras cavernas, habitada há milhares de anos por muitos gurus, sábios e santos. Dizem que essa montanha é a própria manifestação do deus Shiva, por isso ela é reverenciada de várias formas. Uma das buscas mais constantes dos peregrinos é o desejo de subir até ao topo. Esse feito purifica e abençoa os devotos que assim o fazem com fé.

Lá também viveu o grande sábio e santo Ramana Maharshi, respeitado em toda a India pelos seus sábios ensinamentos e sua pureza de vida. Ele morreu em 1950 e deixou seu ashram aos pés do Arunachala que é freqüentado por muitos peregrinos, todos em busca de chegar um pouco mais perto daquele ser iluminado. Na caverna em que ele habitou, pudemos respeitosamente entrar e lá meditar por algum tempo.

Aquela energia me alimentou e eu consegui chegar ao topo! Oitocentos metros dispostos em uma escalada íngreme, com muitas pedras, um sol escaldante, duas horas para subir... Utilizei-me de todas as minhas forças. Havia um medo secreto guardado dentro das pedras e era ele que me empurrava em direção ao Alto. Lá em cima, perto do céu, eu tentava ouvir e ver o silêncio que mansamente começava a habitar minha alma. Mais duas horas para descer e, mesmo acreditando ao contrário, foi pior a descida... As forças se esvaíam, literalmente... Todos os meus sentidos ficaram resumidos na plena atenção do pisar. O sol continuava a castigar e a descida parecia ainda mais longa...

Tenho certeza de que fui abençoada. A bênção da força presente, a bênção de testar meus limites, a bênção da não desistência, a bênção do sentido da proposta, a bênção da luta que glorificava cada passo. Impossível não acreditar que Shiva caminhou comigo personificado em cada um que me deu a mão, que me incentivou e que me fez acreditar que só há sentido quando damos um passo a mais.

Lá no topo, minhas lágrimas chegaram e eu devo ter sorrido toda a dor. Vivia naquele momento um silêncio lúcido que era só meu, mas que, ao mesmo tempo, dividia com todos que subiam, ou melhor, dividia com toda a humanidade ali presente em cada um e em cada passo.