08 de julho de 2026

Ainda a censura


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O caso foi bastante divulgado, mas as preocupações do cotidiano são exímias fabricantes de esquecimento. Como a memória é arma fundamental para a democracia, não custa nada recordar essa ação comprometedora de nosso judiciário.

Em junho de 2009, o Estadão denunciou os atos secretos do Senado, envolvendo diretamente o presidente da Casa, José Sarney. Foram mais de 650 decisões mantidas sob sigilo nos últimos anos, conforme apurou a comissão de sindicância.

Para complicar ainda mais a vida da ‘corte’ maranhense perante a opinião pública, nesse mesmo mês o jornal revelou o salário estratosférico do mordomo de Roseana Sarney. Se fosse pago pelos fartos recursos financeiros da família, sem problema. Salário, no âmbito privado, se discute entre empregado e empregador. Mas não, o tal mordomo era funcionário efetivo do Senado, o que mostrava claramente a forma promíscua de tratamento da família com relação ao erário público.

Em julho desse mesmo ano, o jornal publicou outra reportagem que expunha a família. Agora era a vez do filho, Fernando Sarney. Em uma operação da Polícia Federal, foram encontradas algumas provas que depunham contra o grupo empresarial de Fernando. Em função dessas reportagens, Fernando Sarney pediu na justiça que se impedisse o jornal de continuar publicando informações que pudessem prejudicá-lo.

O desembargador Dácio Vieira, do TJ-DF, obedecendo mais aos laços de amizade que o liga aos Sarney do que à Constituição Federal, acatou o pedido e jogou um pouco mais de lama em nossa recente democracia. Com argumentos que são objetados pelos mais renomados juristas do país, o desembargador censurou o jornal, proibindo-o de divulgar qualquer reportagem sobre o empresário.

Por mais que se discutam as questões jurídicas que subjazem ao caso, no fundo o que está por trás de tudo isso é a nossa terrível tradição coronelista. O direito à vida privada e à honra, como prevê a Constituição, não pode sobrepor-se aos interesses da coletividade. Em qualquer país democrático isso já é um consenso. Se um indivíduo com cargo público enriquece ilicitamente, é dever da imprensa investigar, apurar e divulgar essa imprópria apropriação do dinheiro público, a despeito do direito à honra e à privacidade dessa pessoa, até porque sua função é pública e seu ato não tem nada de honroso.

Nesse sentido, a fotografia estampada na primeira página do Caderno Especial sobre o episódio, que o Estadão lançou no último domingo, é bastante significativa. Vale, realmente, por mil palavras.

A imagem de Dácio, o desembargador amigo, Sarney, Agaciel Maia e Renan Calheiros, todos sorridentes e bem vestidos, em cerimônia de casamento, só nos mostra que a Casa Grande ainda resiste, agora sediada em Brasília, sob o mando sereno, mas firme e disposto, do coronel José.