08 de julho de 2026

O medo do goleiro


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Quase toda palavra pode sofrer modificações de sentidos ao longo do tempo. Ou então ser substituída por outra. O jogador de futebol responsável pela maior parte da alegria ou da tristeza do torcedor era conhecido como guarda-meta. Posteriormente, houve uma regressão para guardião. Mais tarde, as duas nomenclaturas foram encampadas em ‘goleiro’.

Vários leitores deste Comércio manifestaram curiosidade em saber o ano em que o goleiro Fininho havia jogado na Francana. A memória desses torcedores indicava a década de 1960. No entanto, ficava a falha do ano exato. Dias atrás, a coluna Há 50 anos, compilada por Luiz Neto, jogou luz na memória de muitos francanos ao rememorar a chegada do guardião a Franca, exatamente no dia 22 de julho de 1961.

A efeméride esportiva serviu para trazer à baila um fato marcante da carreira de Pelé. Fininho entrou para a história do futebol por ter defendido o primeiro pênalti batido pelo jogador mais famoso do mundo. Isso se deu em 1958, numa final entre Santos e Jabaquara. Por perder o gol, Pelé deixou o alojamento santista durante a noite. Sua intenção era abandonar o futebol. A fuga para Bauru foi impedida pelo roupeiro do time da baixada litorânea.

Nos dias de hoje, aquele quase gol deixou de ser significativo. Haja vista para a semifinal da Copa América. Jogadores brasileiros desperdiçaram quatro pênaltis seguidos. Apenas um deles acertou a meta. Só que o goleiro paraguaio conseguiu defender. Os outros três atletas incrivelmente chutaram a bola para fora. Ninguém se desesperou por perder as penalidades. A culpa ficou por conta do gramado. Para eles, não faltou consciência nas cobranças.

Houve um tempo em que perder pênalti causava imenso sofrimento ao jogador. Por si só o goleiro sempre esteve em posição privilegiada. A responsabilidade pela marcação do gol é toda do cobrador da penalidade máxima no futebol. Mesmo assim, o ex-goleiro e escritor Peter Handke vivenciou a dor de não marcar e escreveu “O medo do goleiro diante do pênalti”.

A obra foi adaptada para o cinema pelo diretor alemão Wim Wenders. Pela trama do livro ou do filme fica clara a angustia sentida pelo goleiro no momento em que o pênalti vai ser cobrado. Agora, medo mesmo, ele sente quando se torna o cobrador da penalidade. Se perder o gol iminente, pode então entrar em desespero total. Pior ainda, caso seja substituído no jogo justamente pelo tento desperdiçado, a vida ganha contornos de tragédia.

Pelé quase abandonou o futebol por ter perdido o primeiro pênalti como jogador profissional. Um ex-goleiro teve inspiração macabra depois de desperdiçar a cobrança de uma penalidade máxima. Fosse assim ainda hoje, muitos jogadores estariam condenados pela própria consciência. Mas perder o gol mais feito do jogo virou banalidade. O que importa é o numerário.

Antônio Araújo
Professor de Redação - tonin.palavras@uol.com.br