08 de julho de 2026

Jogou a toalha


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O Ministério dos Transportes continua a dar uma tremenda dor de cabeça para o governo. Já foram quase 20 funcionários demitidos e umas boas semanas de manchetes nada agradáveis. Isso sem contar o desgaste com o Partido da República, responsável pelo órgão e parte de sua base aliada, já que toda essa celeuma acaba por levantar temores e suspeitas em ‘lobos’ que habitam as estepes de outros partidos.

Cria-se, como conseqüência, um ambiente de tensão. A cada manchete, uma nova injeção de ânimo para a oposição e mais angústia para o governo e seus aliados. Um jogo de cena que já deveria ser esperado por todos, dada a envergadura da verba administrada pelo Ministério em questão. Sozinho, nos últimos seis meses, gastou 48% das verbas do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Em função disso, os debates ganham um colorido especial. Alguns aproveitam para alfinetar opositores. Outros vociferam por mais mudanças e mais transparência. Outros se calam com medo de que os ventos mudem sua direção e façam surgir arranjos ainda submersos nas misteriosas entranhas do poder. Um verdadeiro jogo de cena, mostrando que Brasília é hoje um dos principais espaços da tragicomédia brasileira.

Uma dessas cenas, no entanto, chamou bastante a atenção nessa última semana. O ex-diretor do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), Luiz Antônio Pagot, encheu um auditório com 500 de seus colaboradores e fez um discurso inflamado. Disse não ser corrupto, defendeu o órgão e seus servidores, alfinetou o governo, ratificou a eficiência do órgão e no final foi muito aplaudido, deixando o espaço de forma apoteótica.

Porém, jogou a toalha. Apesar de tudo, não se dispôs a lutar por tudo que afirmou defender e disse acreditar. Com certeza, um final ruim para uma peça ainda pior.

Se lembrarmos a peça O Inimigo do Povo, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, talvez possamos apreciar algo muito melhor. A história se passa em uma pequena cidade cuja maior fonte de renda advém de sua Estação Balneária. O Dr. Stockmann, personagem principal, descobre que a água está contaminada, causando doenças em vários visitantes. Propõe-se, então, a defender a verdade. Porém, como sua denúncia poderia levar à ruína da cidade, todos se voltam contra ele. De herói, ele rapidamente vira vilão.

No entanto, sua convicção em relação à verdade faz com que ele se mantenha firme em seus propósitos. Na última cena da peça, Dr. Stockmann afirma que o homem mais forte é aquele que está mais só.

Pagot preferiu outro caminho. Juntou-se aos amigos e renunciou às suas convicções. Talvez porque elas não sejam tão firmes.