Vivenciamos quatro dias dentro de um ashram, às margens do Oceano Índico, no estado de Kerala, bem ao sul da Índia. Estivemos no Mata Amritanandamayi, mais conhecido como o ashram da Amma do abraço.
Um ashram é um local de busca espiritual e de autoconhecimento. Os residentes do ashram têm tarefas a cumprir para o bem daquela comunidade. Há também os visitantes que devem se enquadrar às regras propostas e contribuir de alguma forma para o bom andamento de todas as atividades. O respeito ao silêncio, a máquina fotográfica guardada e a presença aos cultos fazem parte do dia a dia de quem está lá para receber a bênção da Mãe. É assim que ela é chamada e respeitada por todos. É considerada uma santa viva, uma encarnação iluminada. Sua presença traz estrangeiros do mundo todo, alguns já residentes, outros que se dizem devotos da Amma e que freqüentam seu ashram pelo menos uma vez por ano. Lá estão eles, ingleses, americanos, italianos, alemães, espanhóis, brasileiros, holandeses, sozinhos ou com a família, todos numa reverência profunda à figura da Amma.
É que, além do trabalho devocional, é ela também uma grande líder humanitária, preocupada com o bem-estar do próximo. Junto ao seu ashram há um hospital e uma universidade, mantidos por ela. São excelentes médicos, aparelhagem moderna e eficiente e os cursos universitários estão entre os melhores da Índia. Creches, orfanatos e conjuntos habitacionais atendem aos mais carentes. Amma já foi várias vezes premiada por organizações internacionais pelo seu trabalho humanitário.
Ficar lá por alguns dias me deu a oportunidade de receber também sua bênção que é um abraço. Depois de todo o ritual do qual ela participa, cantando mantras e dando ensinamentos, ela se dispõe a abraçar a todos os presentes. Seu abraço é o darshan, ou seja, a bênção que ela oferece aos que lá estão. Fiquei sabendo que muitas vezes ela passa a noite toda oferecendo seu abraço, tal a quantidade de pessoas. É um ato de amor, de doação, realizado com um sorriso e com um semblante que nunca mostra cansaço ou tédio. Cada um, na fila, espera, pacientemente, que chegue sua vez.
Vivi cada momento com intensidade, orientada pelo nosso líder espiritual, Marco Shultz, que nos dizia que peregrinar é de pouco a pouco, experimentar a Presença no Agora. Isso me fazia melhor, pois ao chegar ao nosso quarto, podia olhar com aceitação aquelas acomodações simples, sem conforto algum, exercitando o fácil e o difícil, com inteireza. Podia acordar às cinco horas da manhã com alegria, lembrando-me de aquele era o momento para viver aquilo. Já, já, ia passar porque a questão da dualidade se faz presente na efemeridade de tudo que vivemos e sentimos. Vamos acolher o desconforto e ser uno com ele, nos dizia Marco. Encarar o diferente e desapegar até mesmo de entender o que está acontecendo. O importante é reconhecer nossa humanidade e conseguir praticar uma ação sem desejo, desenvolvendo uma consciência que vem do Sopro. Não se identificar nem com a esperança, nem com o medo, pois todas as coisas podem nos levar à mesma essência. É justamente na diversidade do caminho que descobrimos, exatamente, que
tudo faz parte do todo.
Todos esses ensinamentos, que de certa forma já os conhecia, tomavam corpo e se transfiguravam em outro sentido, a medida que eu vivenciava também o novo.
Pareceu-me que lá, vivendo com regras e normas, eu descobri o verdadeiro sentido da palavra liberdade. A liberdade de ser o que se é, na essência do Eu Maior.