Não foi a primeira vez. Há muito tempo peço aos amigos – quando os convido para nos reunirmos à guisa de comemorarmos alguma efeméride – que substituam presentes tradicionalmente oferecidos em datas especiais, por algo que eu possa transferir e doar
Num ano, já bem distante – e bota distante nisso – pedi roupas de cama. Houve reação curiosa, talvez pelo inusitado do gesto. Houve quem entendesse que eu estaria, com tal pedido, desvalorizando o mimo que pudesse ganhar. Houve quem torcesse o nariz, me achando pedante e mal educada. Felizmente a maioria compreendeu que eu ficaria mais feliz, fazendo alguém mais feliz que eu pudesse ficar. Meus convidados, naquele ano, foram pródigos: “ganhei” perto de cem jogos de cama, a maioria de casal. Para distribuí-los, pedi ajuda a amiga que levou grande parte deles para pessoas idosas que há muito não sabiam como é bom dormir numa cama arrumada, com lençol esticadinho, sem rombos. Os remanescentes fiz a besteira de entregar a uma instituição que, por mais incrível que pareça, desviou-os e, soube, pessoas diretamente ligadas a ela trocaram os seus usados de casa, pelos novos que eu ingenuamente levara.
Naquele mesmo ano, outro aniversariante adulto de casa pediu aos amigos, que vieram para ajudá-lo a apagar as velinhas, brinquedos que foram entregues no Natal, para crianças das creches conhecidas. Depois foi a vez das cestas básicas, proposta repetida posteriormente outras muitas vezes. Sugerida como presente no convite impresso, uma empresa especializada as montava segundo a orientação daquela mesma amiga que ainda vive para ajudar o próximo. Foi uma alegria só. Ela teve cestas por bastante tempo, para acudir suas famílias carentes e necessitadas. Teve, também, a festa dos “Quase 200 anos”. Naquele ano comemoramos quatro aniversários “redondos” em casa: da minha mãe, o meu, do filho mais velho e do caçula. Somando, dava aquele montão... Montei um circo de verdade em casa, com direito a bandeira e tudo. Os convidados vieram fantasiados como se fossem do elenco circense, Renzo se esmerou na decoração, Deva veio com a equipe de danças e, claro, tinha até elementos do “respeitável público” – que hesitaram diante da possibilidade de usar a imaginação e sua própria fantasia. Recorde de arrecadação e animação, aquela festa deixou saudades.
Recentemente veio o desejo de comemorar em julho a data dos meus quarenta anos de casamento. Em janeiro comecei a preparação. Perguntei à mesma amiga, quem e como eu poderia ajudar através da minha festa: indicou-me o Berçário Dona Nina. Explicou-me, é instituição francana que atende crianças com necessidades especiais, vindas de outros berços que ou não têm condição financeira de acudi-las ou não têm estrutura para fazê-lo. O Berçário acolhe, cuida, atende, trata, acode e as crianças voltam recuperadas para suas famílias de origem. Confirmada a realização da festa, enviei os convites e pedi, então, que não nos dessem presentes, que fizessem de nós, instrumentos para ajudar o próximo. Fomos atendidos. Recebi durante a semana visita de diretora do Berçário, informando que há R$ 8.435,00 disponíveis, depositados por nossos convidados. Já têm destino: serão usados para cirurgia de recuperação em uma das crianças que nasceu com grave defeito facial; para ajudar na interminável compra de fraldas; na compra de leite especial; na compra de remédios; na compra de aparelhos ortopédicos; na compra de... Diante da minha incredulidade e surpresa pela exagerada prospeção financeira, ela riu e disse que nem imagino como o dinheiro se multiplica quando ele é, como é no caso do Berçário, fundamental. E, principalmente, sempre que doado de coração.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br