08 de julho de 2026

Para onde vai?


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No sábado, 23/07, no espaço Ave Palavra, Luiz Cruz de Oliveira e Sonia Machiavelli inauguraram uma interessante mostra literária. Com instalações criativas, cada um personalizou uma sala da casa, criando sensações que se misturaram aos livros e objetos pessoais ali expostos. Urdidas na trajetória individual de cada um, essas instalações surpreenderam pela leveza, pelo bom gosto e pelo inusitado de sua montagem, algo com que Franca, infelizmente, ainda não está acostumada.

Uma terceira sala, porém, chamou bastante a atenção daqueles que por ali passaram. Era a sala dedicada à história da literatura francana. Em formato que lembra uma loja de calçados, várias caixas de sapato foram dispostas em uma estante encostada na parede. Dentro delas, ao invés de sapatos, livros de escritores francanos, de muitos ou quase todos, desde os primórdios do século passado até os dias de hoje.

Como em uma loja de calçados ‘self-service’, o público podia se aproximar da estante e escolher o nome do escritor, como se fosse o número do calçado. Tirando as caixas de cima para pegar uma embaixo, colocando as caixas do lado ou pegando várias ao mesmo tempo os leitores repetiam as mesmas ações que acontecem numa loja de calçados, quando o atendente retira da estante as várias caixas que contêm os sapatos a serem experimentados.

Metaforicamente, os leitores podiam escolher seu ‘tamanho’ ideal ou experimentar novos ‘números’, descobrindo a variedade de ‘formatos’ e a viagem histórica que esses livros escondem. Além de homenagear os que ajudaram a construir a cultura francana, remete ao calçado, que ajudou a erigir sua economia.

Uma idéia simples, mas forte e original. Uma idéia executada com maestria e totalmente adequada ao contexto histórico da cidade. Uma idéia que acabou se consubstanciando na própria recuperação da memória da literatura francana, o que deixa transparecer o enorme trabalho de busca e pesquisa que lhe subjaz.

Uma ideia, porém, que está fadada a se desfazer rapidamente. Como a exposição termina no final dessa semana, as caixas deverão ser retiradas pelos escritores. Por não existir outro espaço para expô-las, deverão se acumular sob a poeira de algum porão. Os livros, por sua vez, voltarão aos seus lugares esquecidos, dispostos sem um conceito de exposição que lhes restitua a história, como foi feito agora.

Uma triste realidade. Franca, bem como suas autoridades, parece não perceber a importância dessa exposição, muito menos o tamanho da obra aqui produzida. Se considerarmos que essas caixas guardam um século de produção literária, desperdiçá-la seria um atentado contra a cultura.

Caberia ao poder público um pouco mais de atenção à cultura, mais especificamente à literatura. Tornar permanente essa mostra que surgiu pela insistência de alguns, deveria ser uma obrigação da Prefeitura. Como já está paga e pronta, é preciso apenas alocá-la. Onde? Local não deve faltar. O que falta é vontade política.