08 de julho de 2026

Agência Brasil


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O banco de cimento não tem encosto, por isso, não podendo recostar-se, o velho está inclinado para a frente, com ambas as mãos na bengala, o queixo nelas apoiado. Absorto, leva susto quando seus devaneios são quebrados pelo cumprimento.

- Bom dia, meu senhor. Dá licença?

O recém-chegado já está sentado, muito antes de a aquiescência chegar.

- Hein? O que o jovem disse?

- Falei bom dia, pedi licença pra sentar.

- Ah! Sim, sim... pois não... Fique à vontade.

- O senhor está bem?

- Estou... estou sim... Estava distraído. Qual a graça do rapazinho?

- Graça?

- É... o nome do jovem.

- Ah... Luiz. Meu nome é Luiz Carlos Alves.

- Chico Franco, às suas ordens.

As palavras acompanham o gesto de descobrir-se que resulta em apenas leve toque na aba do chapéu branco..

- Eu atrapalhei o senhor?

- Não, não. Eu estava aqui, olhando a Agência Brasil. Quando era menino, eu trabalhei ali. Vendia revista na rua. Eu e mais uns dez moleques, tudo de calça curta. Cada um saía para um lado da cidade, ia atrás da sua freguesia.

O interlocutor parece atento, e Chico Franco , como se distribuindo jornal, vai dividindo as suas memórias, construindo no outro uma Franca que não mais há.

Eram dois irmãos: Juca e Geraldo. Adolescentes, iam toda noite, lá para a Estação, esperar a chegada do trem da Companhia Mogiana. Retornavam ao centro carregando pacotes de revistas e jornais, esperavam o final da sessão do Cine Teatro Santa Maria, vendiam novidades para a platéia de filmes mudos.

Assim que ficaram moços, abriram firma na Praça Barão, Papelaria Agência Brasil, no mês de janeiro de 1935, a qual está ali até hoje.

- Agora é dirigida pelo Rosalvo, filho do senhor Geraldo e da dona Zélia. É a firma comercial mais antiga de Franca.

O interlocutor fica sabendo ainda que o senhor Juca era pescador inveterado, viajava longe, em companhia do Barion, o fabricante de chuteira.

- Os meninos vendiam muita revista?

- Ah, se vendiam.

E o velho vira menino outra vez, percorrendo ruas da Franca de outrora.

Desce a Rua General Teles, vira à esquerda, visita freguesas ricas lá na Vila Flores. Elas compram revistas de corte e costura, que trazem moldes e modelos. Volta, desce e sobe a Rua da Estação, vendendo O Cruzeiro nas barbearias e nos institutos de beleza. Os fregueses gostam das reportagens do Davi Nasser e das piadas do Amigo-da-onça. Lá na Estação, vende a Revista do Radio e a revista Capricho. As mocinhas e rapazes gostam da Emilinha Borba, querem ver retrato da Mamãe Dolores, saber da vida dos artistas da novela O Direito de Nascer.

- A gente ganhava dez por cento do que vendia.

- Era muito?

- Às vezes era. Quando A Voz do Rádio, o cantor Francisco Alves, morreu, em meia hora não existia mais revista, acabou tudo.

A voz do velho se entristece.

- Acabou tudo... O jovem também é aposentado?

- Quem me dera. Ainda trabalho. Sou mecânico, tenho uma oficina ali na Rua Batatais. Estou aqui só esperando um freguês. Aliás, ele chegou. Até mais ver, meu senhor.

- Até mais.

O velho leva a mão à aba do chapéu, mas o outro já está de costas, já caminha para longe, não percebe o gesto.

O homem de terno branco permanece sentado, as mãos apoiadas na bengala, os olhos agora fixos no prédio que abrigou a Lâmina de Ouro.