08 de julho de 2026

Pequenos acidentes


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É dando que se recebe. Essa frase bíblica, de forte cunho solidário, infelizmente assume outras conotações na cultura política brasileira. Por razões históricas e culturais, nossas autoridades acostumaram-se a dar o que é público para receber o troco no âmbito do privado.

Para muitos pensadores, essa endêmica corrupção que nos acomete estaria ligada ao patrimonialismo que ainda resiste no Brasil atual. A despeito das conquistas da Constituição de 1988 e de mais consciência política por parte da população, continuamos ainda presos a um sistema de dominação centralizado e autoritário, em que a riqueza, os bens sociais, cargos e direitos são distribuídos como patrimônios pessoais dos governantes de plantão.

Os recentes escândalos envolvendo o governo, o PR (Partido da República) e o Ministério dos Transportes só fazem confirmar essa terrível herança. Empresa de filho de ministro que cresce 86.000% em apenas dois anos. Empresa de mulher de diretor executivo de órgão público que firma contrato de 18 milhões com esse mesmo órgão. O mesmo poderia ser dito sobre o filho de Lula, sobre a filha de Serra e sobre muitos outros filhos, esposas e amigos dos poderosos.

Nada disso nos surpreende. Ao contrário, reforça a sensação de naturalidade com que a corrupção parece invadir nosso cotidiano. Se analisarmos as declarações já feitas por jornalistas, políticos e pessoas de destaque de nossa sociedade perceberemos essa triste ligação. Em 1994, Roberto Pompeu de Toledo escreveu na Veja: ‘hoje sabemos, sem sombra de dúvida, que a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições’. Adib Jatene, Ministro da Saúde no governo Collor, afirmou em 1992: ‘quem faz o orçamento da República são as empreiteiras’. Maria Helena Guinle, socialite carioca, mesmo após o afastamento de Collor, com todas as provas apresentadas, ainda o defendia: ‘deslizes acontecem a vida inteira. No momento em que você ocupa um cargo que te favoreça de alguma forma, acho até um pouco de burrice não aproveitar a situação’.

Essas declarações demonstram que há uma relativa tolerância com a corrupção no Brasil, o que acaba apoiando e reforçando essas atitudes, criando, inclusive, certa empatia com boa parcela da população.

Apesar de tudo isso, as recentes declarações do vice-presidente Michel Temer ainda chocam os mais sensíveis, não pelo histórico do declarante, mas pelo cargo ocupado por ele. Dizer que esses escândalos são apenas pequenos acidentes políticos, que passarão rapidamente e logo serão esquecidos, é no mínimo indigno da função que ora desempenha, além de ser uma afronta à boa parte da população que representa.

A despeito da evolução que já experimentamos, palavras como essas, vindas de onde vieram, só nos fazem perceber o quanto ainda teremos que lutar para reformar nosso sistema político e para torná-lo mais transparente e menos patrimonialista.