Como dizem os economistas, os números bem torturados confessam qualquer coisa. Dessa máxima, infere-se a possibilidade de enganar, aos outros ou a si mesmo. Por outro lado, esses mesmos números, se bem analisados, permitem a elaboração de cenários e o redirecionamento de planos e estratégias.
O ideal, é claro, seria esse último caminho. No entanto, se refletirmos sobre alguns números apresentados por duas matérias, publicadas pelo Comércio nessas últimas semanas, não iremos vislumbrar um futuro muito promissor.
Há alguns dias, o Comércio divulgou dados relativos às médias salariais do Estado de São Paulo. A região de Franca respondia pela média mais baixa do Estado. O fato de nossa principal indústria valer-se de mão-de-obra intensiva e de baixa escolaridade seria a principal explicação.
Se juntarmos a esses dados a alta média de evasão escolar no ensino médio francano, divulgada pelo Comércio na terça-feira, 19-07, é possível inferir o fechamento de um círculo, infelizmente ‘vicioso’.
A indústria paga mal porque tem muitos funcionários e sua produção ainda seria muito artesanal. Em função disso, a escolaridade dessa mão-de-obra não seria relevante, uma vez que a prática seria mais importante que os estudos.
Por outro lado, de acordo com as alegações dadas pelos diretores das escolas com maior índice de evasão, essa perda de alunos estaria relacionada à necessidade de trabalhar que perpassa a maioria desses jovens.
A despeito de serem muito simplistas, essas duas explicações, se aceitas passivamente, levariam à perpetuidade dessa situação. Podemos ter mão-de-obra disponível, porém com baixíssima qualificação.
Mesmo que consideremos a diversificação industrial experimentada pela cidade, é possível entrever um futuro de estagnação. Dentro desse contexto, continuaríamos apresentando a média salarial mais baixa do Estado, já que a remuneração está ligada também ao nível de escolaridade.
Para que continuemos competitivos no âmbito do mundo globalizado, e não prejudiquemos o desenvolvimento de nossos jovens, seria bom que começássemos a trabalhar para mudar esse cenário.
Por um lado, os empresários deveriam valorizar e incentivar mais os estudos, talvez criando melhores condições para aqueles que a eles se dispõem.
Por outro, as escolas precisariam se reinventar. Pagar melhor os professores e dar-lhes melhores condições de trabalho para que se sintam mais motivados. Melhorar as instalações dos edifícios escolares para que os alunos se sintam em um ambiente mais agradável, algo fundamental para quem se dispõe ao aprendizado.
Além disso, seria importante repensar o modelo de ensino, bem como sua metodologia, demasiadamente monótonos para os dias atuais.
O primeiro caminho talvez seja mais fácil, porque já bastante discutido e recomendado, inclusive por consultores da área. O segundo, no entanto, é bem mais desafiador, dependendo de vontade política e de pressão social.
De qualquer forma, teremos que percorrê-lo um dia.