Pena que as músicas italianas quase não são mais ouvidas no Brasil. Além da beleza sonora, as letras são inspiradíssimas. O que teria contribuído para o sumiço gradativo de toda carga romântica contida nos harmoniosos acordes vindos da Itália em tempos não muito distantes? Talvez a pouca aceitação das canções esteja na atual falta de sintonia entre homem e mulher.
Sem dúvida nenhuma, a língua italiana é uma das mais melodiosas para se interpretar qualquer história de amor. Até mesmo o desencontro amoroso ganha muito mais dramaticidade quando cantado no idioma que mais traços guarda do latim puro, falado pelos romanos em vasta região da Europa, bem antes da existência da Itália.
Ninguém melhor que o cantor italiano Riccardo Cocciante para interpretar o fim de um relacionamento amoroso. Sua voz grave modula toda indignação masculina diante da simulação ou da traição feminina. Na música Bella senz’Anima (Bela sem alma), o intérprete da Itália dá vazão a toda raiva acumulada durante a vivência de um tumultuado caso. Bem ao estilo de uma ópera, Riccardo Cocciante inicia a canção quase que sussurrando à amada: ‘E agora, sente-se naquela cadeira/ Desta vez, escute-me sem interromper’. Difícil missão. Além de pedir para parar e ouvir, a letra prega ainda a necessidade de a mulher não interromper a fala.
Depois, os versos seguem divagando sobre a inutilidade de o eu-lírico ter vivido junto com a mulher, mesmo sem haver risos ou lágrimas da parte dela. De repente, lá pelo meio da música, a voz do cantor eleva-se com verdades fortes: ‘Na sua armadilha caí também/ Deixo o meu lugar para o próximo/ E quando na cama ele pedir mais/ Você concederá, porque sabe fingir’.
O verbo ‘conceder’ sai modulado na canção como se fosse o urro de animal ferido. Talvez grito parecido tenha sido dado pelo protagonista da notícia policial deste Comércio, no último sábado, com o título: ‘Rapaz apanha do namorado da ex em motel’.
De acordo com o conteúdo da notícia, um operador de máquinas, de 25 anos namorava uma balconista, 22. Terminado o relacionamento, ela saiu com outro. Ambos foram seguidos pelo ex, que não interferiu durante o trajeto, antes do fato. Somente agiu quando o casal já estava no quarto do motel. Cego de dor, arromba a porta. Avança sobre o rival e acaba levando alguns socos do antagonista.
Pobre rapaz! Deveria ter ouvido mais músicas, principalmente as italianas que são tão cheias de desencontros amorosos. No entanto, dificilmente acontece agressão física no conteúdo das letras. Fica no ar tão somente a mensagem de que não se deve ir atrás da bela sem alma que fugiu. Quando a mulher vai embora não adianta segui-la. Muito menos querer agredir o concorrente. Além de poder apanhar, a pretendida só volta se for por vontade dela.
Antônio Araújo
Professor de Redação - tonin.palavras@uol.com.br