08 de julho de 2026

Romance histórico no século XXI


| Tempo de leitura: 6 min

À primeira vista parece que os adjetivos histórico e moderno se opõem, pelo menos no patamar da literatura, onde presente e passado nem sempre se harmonizam, embora devessem. Há espaço, ou seja, leitores, para romances históricos no século XXI? A se constatar o sucesso da francesa Juliette Benzoni, 90 anos, conhecida na Europa como “a dama do romance histórico’, traduzida para mais de vinte idiomas, é de supor que sim. Ela é a autora de Rainhas Trágicas e mais uma dúzia de narrativas do gênero.

No caudal da literatura, o romance histórico emerge junto com o movimento romântico, no viés do gosto pelo passado que se vai buscar envolto nas nuvens do exótico. O primeiro expoente do gênero é Walter Scott, o de Ivanhoé (1820), cuja obra popular sempre esteve intimamente associada à afirmação da história e dos interesses da Escócia. Sir Walter Scott inventa o romance histórico e será seguido na Itália por George Eliot, com Romola; em Portugal por Alexandre Herculano, com Eurico, o presbítero; na Rússia por Tolstói, com Guerra e Paz; na França por Alexandre Dumas, com Os três mosqueteiros, e por Gustave Flaubert, acusado de naufragar o gênero com Salambô (1862).

Por longo tempo o romance histórico, articulação de uma oposição entre plano público e individual, seria esquecido ou relegado a nível inferior. O modernismo simplesmente sepultou qualquer investida dos ficcionistas neste gênero. Mas o pós-modernismo, com seu desafio à estética, às formas narrativas e aos procedimentos linguísticos característicos da escola anterior, voltou a abrir possibilidades para seu renascimento mediante reestruturação. É com esta roupagem nova que José Saramago surpreende com seu arquitetônico Memorial do convento, para a maioria dos críticos o seu melhor romance, narrativa onde o leitor é informado sobre a sociedade portuguesa do início do século XVIII, marcada pelos excessos da Corte, a exploração dos trabalhadores e o peso da Inquisição. Sob formatação rejuvenescida, o herói desaparece para dar lugar ao ser humano multifacetado, ao espaço social passível de intervenção pelas palavras do escritor.

Juliette Benzoni, da mesma geração de Saramago, trilha caminho um pouco diferente em Rainhas trágicas, pois contempla alguns perfis de cada vez, trazendo dos bastidores para o procênio figuras nobres focadas em momento de crise, um pouco à maneira de Shakespeare. Seu texto tem uma estrutura de conto, o estilo mostra vigor plástico, de forma que ao lê-lo, o que também acontece com o inglês, temos a impressão de que as cenas se desenrolam sob nossos olhos, como se movimentadas num palco. No livro que serve de motivo a essas considerações, Benzoni relata a vida de dezoito rainhas, em reinos ocidentais e orientais, que se tornaram célebres por sua beleza e seu destino, marcado pela adversidade e pela tragédia. A razão de Estado permanece em todas as narrativas confrontada com sentimentos de amor, ódio, ambição, inveja, perda e vingança.

O êxito de Benzoni decorre da perfeita sintonia entre o discurso romanesco e os dados históricos. Rigorosa na pesquisa, atenta a detalhes de hierarquias e protocolos, ela se mostra também sensível à percepção do humano com todas as suas nebulosidades. O forte poder descritivo introduz o leitor em climas de encantamento, como acontece no belíssimo Joana, a louca, sólida peça literária que tem início com o seguinte parágrafo: “Naquele fim de tarde de 24 de fevereiro de 1500, as ruas de Gant estavam cobertas de neve e as pessoas mais atrasadas apressavam-se a voltar para o calor de seus lares. Mas havia festa no Prinsenhof, cujas 365 janelas brilhavam na noite como se houvesse fogo no seu interior.”

Outros dois perfis também inspiradores a muitos artistas são retomados e têm os Tudor como foco. Nos capítulos Catarina Howard, a quinta vítima de Henrique VIII, e Maria Tudor, a Sanguinária, a romancista francesa contextualiza as figuras femininas na corte de Henrique VIII, marido da primeira, pai da segunda, algoz de seis mulheres com quem se casou e a quem mandou decapitar. A mãe de Maria Tudor foi a rainha espanhola Catarina, cuja desdita na corte inglesa motivou romances, peças, séries e filmes, além de ter deflagrado o processo conhecido por cisma, que deu origem à igreja anglicana. Logo no início do texto protagonizado por Maria Tudor, a narradora desloca seus comentários e faz a luz incidir sobre a figura que está ao lado do leito do rei moribundo: “Maria não tivera marido, mas tivera cinco madrastas!” Este tipo de inferência, ao longo das narrativas, constitui um dos aspectos renovados do antigo romance histórico. Respeitando os fatos de maneira criteriosa, ela deixa a linha da absoluta isenção narrativa e não se recusa a questionar os prováveis sentimentos de pessoa submetida a pressões desumanas. Ao fazê-lo cria com o leitor cumplicidade.

Outras rainhas além das mencionadas mereceram a atenção de Benzoni. Mas da China à Escandinávia, as biografias só mudam de endereço porque o sofrimento derivado do poder e a solidão a este inerente sempre foram avassaladores nas cortes de todos os tempos.

EXEMPLO DE VITALIDADE

Juliette Benzoni

Em entrevista à Marianne M. Jason, no dia em que completou 80 anos, Juliette Benzoni disse, entre outras coisas enternecedoras, o seguinte: “Minha vida não apresenta nada de especial. Sou uma mulher tranquila, cultivo a paixão do passado e das viagens, percorro milhares de quilômetros para ver ruínas de castelo ou arquivos de prefeitura. Creio em fantasmas e também que velhas pedras conservam algumas emanações de almas que as habitaram. Dessa forma, é impossível para mim escrever um livro sem me envolver na atmosfera dos diferentes lugares onde se passa a ação das histórias que conto. Preciso observar a paisagem, respirar o mesmo ar, olhar o rosto dos moradores e a cor do céu (...) Cultivo rosas, vivo em meio a incontáveis livros, pinto, bordo, teço. E também, claro, cozinho, como toda francesa que se respeita como tal. Minhas melhores realizações são a galinha de panela, a codorna com molho de uvas, o carneiro ao queijo, as quenelles de salmão(...) Enfim, sou uma mulher sem história que escolheu contar a dos outros.”
A última frase não é por inteiro verdadeira, pois a vida de Benzoni foi tão rica até aqui que daria por si só um extenso romance. Parisiense nascida nas proximidades da Torre Eiffel, criada em Saint Germain, adolescente contestadora que virou jornalista, casada duas vezes, dois filhos, dezenas de romances históricos, ela está entre as escritoras mais queridas dos franceses, traduzida para mais de vinte idiomas, cheia de vida às vésperas de completar noventa anos. Continua escrevendo. Seu último livro foi publicado em 2010 e se chama Tragédias imperiais.


Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço
 

Serviço
Título: Rainhas Trágicas
Autora: Juliette Benzoni
Editora: Edições 70
Número de páginas: 325
Onde comprar: submarino.com