Penúltimo dia de 2010. À espera da maior celebração mundial pela Paz. No Rio de Janeiro, cidade bela em natureza curva, de altas linhas, horizontes infinitos, montanha e mar, povo sofrido como S. Sebastião, o seu padroeiro.
Cidade escolhida pela Corte Portuguesa, que deixou sua marca em comidas e sotaques, em plantas. Primeira Capital da República. Apaixonante a atmosfera carioca, com seus “s” e “r” cantantes. O povo exibia um encanto, descontraído e bonachão, diferente dos paulistas, mineiros, gaúchos, baianos, manauenses, goianos, capixabas.
Cada brasileiro, neste país continental, tinha (tem?) um cantar típico sedutor, uma natureza de pedras ou verdes, flores ou edifícios, comidas pimentadas ou importadas pelos imigrantes que ajudaram a construir este imenso Brasil.
O carioca anda bem diferente, e dá para entender os motivos. Não só o carioca. Caetano Veloso, em uma crônica no jornal carioca, dizia que Salvador está violento, diferente “daquela” Salvador que conheceu menino.
Temos hoje o “Brasil brasileiro”, que não guerreia com outros países, mas tem guerras civis, decorrentes de escolhas políticas, décadas de equívocos, não muito diferente de qualquer outro país do planeta.
Dia 30 de janeiro, quinta-feira, no Teatro Municipal do Rio, a exposição dos painéis doados por Cândido Portinari à ONU, em 1956, Guerra & Paz. Uma hora e meia na fila para assistir um vídeo sobre Portinari e ver os painéis.
A ONU está em reforma, e o Projeto Portinari trouxe ao público brasileiro esta obra, que será itinerante, até 2013, quando volta ao seu lugar de origem.
Significativa reflexão, no ano em que acompanhamos uma Guerra no Rio, na tentativa do Governo em retomar territórios para as comunidades que perderam a cidadania, a pertinência ao chamado povo brasileiro. O chamado Complexo do Alemão (que ironia, no nome!), ícone do Crime Organizado, que possuía (possui?) armamento bélico talvez superior ao armamento da Polícia municipal.
Segundo o apresentador, 1000 pessoas, entre turistas e cariocas, têm visitado diariamente a exposição, gratuita, que se estendeu até 6/01/2011. Há 53 anos a obra foi exposta no mesmo Teatro Municipal, Portinari ao lado do então presidente Juscelino Kubitschek.
Uma emoção: um vídeo, dirigido por Carla Camurati, nos conta a história da obra, algo sobre o pintor, e nos desvela, devagar, através de focos de luz, retalhos, detalhes dos dois quadros de 1400 x 953 cm. Gran finale: todas as luzes acesas, os dois painéis, revelados, palmas entusiasmadas. Filas para a platéia se aproximar dos dois painéis. Conversas sussurrantes. Flashes.
Nos dois painéis, uma cor predomina o Azul, em diversos tons. Na Paz, o azul celeste, azul-verde, azul-lilás, azul-verde-amarelo, citrinos, dois ou três rasgos vermelhos em vestido, calça. Crianças cantando, brincando de roda, gangorrando, cavalos brancos e amarelos. Gente, no campo, a trabalhar, a rezar, rostos negros ou azuis claros, róseos. Dois cabritos, ao centro do quadro, empinados, brincam de brigar.
Na Guerra, o azul denso e escuro, azul-roxo, cavalos azuis, marrons, pretos, cavalo amarelo despedaçado. Expressões de desespero, mãos ao alto, em súplica, braços e pés azuis-arroxeados, rostos lívidos, brancos, pétreos.
A cor une os dois estados de espírito, humanos, que se afirmam e se contrapõem mutuamente. Vermelho-vida só na Paz. Na Guerra, vê-se sofrimento de gentes, sem qualquer arma representada. Bocarras no canto direito inferior, bestas selvagens, dentes pontiagudos, ameaçadores, canibais.
Ode à Alegria na Paz, diluído o azul em verdes e brancos. Desespero, arrependimento, contrição, compunção na Guerra, concentradamente azul cobalto, azul-preto. Paz e a Guerra, em diferentes tons de Azul.
O olhar oscila, não escolhe, registra. Tudo azul, e, no entanto, assimétrico na emoção despertada. Somos assim, sem descanso, inquietos, pacíficos, guerreiros. Humanos azuis. Esperando a Paz para dois mil e onze, dois mil e doze... dois mil e azul...
Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga