O som da campainha interrompe importante partida de paciência. Levanto-me, vou ao interfone.
- Pois não ?
- É o Nadir.
É o Nadir, o professor de Física lá da escola Sudário Ferreira. Trabalhamos juntos na Prefeitura Municipal, fomos ambos voluntários, durante sete anos, na construção do Grupo Educacional Veredas.
Abro a porta, os braços, e o coração para o amigo que estivera sumido por dois ou três anos.
- Quanto tempo!
- É... faz tempo.
Quero informações sobre a vida, a esposa, o filho... Especulo se ainda percorre trilhas na Serra da Canastra, o rosto do Nadir se ilumina. Relata as últimas aventuras, a queda da moto, a fratura de um pé, e reitera que nada o impede de usufruir da natureza, de descobrir, cada vez mais, belezuras no pé e no topo da serra.
Quando o amigo toma fôlego, revelo minha surpresa.
- Sua cabeça está quase branca.
- É... está mesmo. Isso é genético, todo mundo na minha família fica de cabeça branca. Meu irmão mais novo já está com a cabeça branquinha. É uma chateação, mas não tem jeito, é genético.
Consolo o Nadir.
- Chateação nenhuma. Você é um cara de muita sorte. Imagine se você tivesse ficado sem cabelo. Chateação é ser careca.
- É... Isso é mesmo.
Pergunto, e o homem vai desfiando os planos para depois da aposentadoria, que ocorrerá no próximo trimestre: pretende viajar por quase todo o Brasil com a esposa. Confessa haver abdicado de alguns desejos.
- Você sabe... a gente fica velho.
- Não lamente, homem. Você é um cara danado de sorte, está ficando velho. Ruim deve ser não ficar velho, ou seja, morrer com vinte, trinta anos.
- É... isso é mesmo.
Conversa de mineiro não muda; entra Juca, sai Manduca e o lenga-lenga continua. Assim, o colóquio resvala para as limitações da idade. Falo a ele de meu rompimento com todas as namoradas, ele faz confissão séria.
- Eu ainda consigo fazer quase tudo. Perdi foi a audição. Você acredita que eu não escuto mais pernilongo?
Nunca nego apoio aos amigos, quaisquer que sejam as situações, por isso retruco de pronto:
- Está vendo ? Você é realmente um cara de muita sorte. Acorda sem sangue, mas dorme a noite inteira, nada o acorda.
- É... Isso é mesmo.
Duas horas depois o amigo se vai. Desligo o computador, viajo pelas serras interiores, em busca de compensações para meus tropeços, para minhas quedas formidáveis.
Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras