Como já era esperado, Dilma Rousseff começa governando sobre o fio da navalha. No primeiro dia de trabalho efetivo, a presidente teve que agir para evitar que uma crise se instalasse e se alastrasse logo a 3 de janeiro, para tentar conter a revolta do PMDB por conta da disputa com o PT pelos cargos importantes do segundo escalão do governo federal. Em reunião com os seus ministros, Dilma decidiu suspender a definição das indicações até a eleição das presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro. Só que, ao acionar o presidente do Senado, José Sarney, pode ter dado um tiro no pé. Afinal, Sarney é o maior interessado em manter seu grupo na direção de estatais (como Eletrobras e a ressuscitada Sudene), ao lado de outros senadores como Renan Calheiros e Valdir Raupp, além do líder na Câmara, Henrique Eduardo Alves - que pretendem ampliar suas áreas de influências. O maior temor de Dilma - de que a disputa partidária contamine votações relevantes no Congresso e, sobretudo, crie um clima de revanche nas definições dos comandos da Câmara e do Senado - toma forma.
A revolta do PMDB é tão grande que anteontem o partido boicotou as cerimônias de transmissão de cargo dos ministros petistas Alexandre Padilha (Saúde), Luiz Sérgio (Relações Institucionais) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), todos do PT. Para tentar minimizar a questão e resolver o impasse que começa a ser criado, o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, está prometendo aos peemedebistas que, apesar da perda de cargos importantes, eles serão recompensados com outros de orçamentos semelhantes - o PT tomou do PMDB a Secretaria de Atenção à Saúde (orçamento de R$ 45 bilhões), os Correios (R$ 12 bilhões) e a Fundação Nacional da Saúde (Funasa, orçamento de R$ 5 bilhões) e este foi um duro golpe. A questão que se cria chega até ao vice-presidente Michel Temer que, embora venha demonstrando estar ao lado de Dilma, deixa implícito que não vai abandonar o seu partido. Tanto é que, em vez de renunciar à presidência do PMDB, apenas se licenciou do cargo por quatro meses. A direção do partido estabeleceu prazo de 48 horas para que se restabeleça o diálogo com o PT.
Ontem, a cúpula peemedebista deixou clara sua posição: o partido anunciou que vai comunicar ao governo que não concorda com o valor do salário mínimo de R$ 540,00. Henrique Alves afirma que o partido não pretende misturar a discussão dos cargos do segundo escalão com a votação da medida provisória do salário mínimo, que será apreciada na primeira semana de fevereiro. No entanto, a decisão da cúpula peemedebista é uma sinalização de que o partido pode liderar uma rebelião dos aliados na primeira votação de um projeto de interesse do governo, que é a MP do salário mínimo. O PMDB foi importante para a montagem da campanha, a ramificação dos palanques, o tempo na TV e a própria vitória de Dilma Rousseff (mesmo com o fator decisivo que foi Lula). Isso tudo tem preço. E, com certeza, o partido já está cobrando.