Lula, presidente melhor avaliado da história do Brasil, é um paradoxo. Sua quase unanimidade se explica pelos bons resultados das políticas que adotou e com as quais tirou da miséria parcela significativa da população brasileira. O “quase” se deve à sua estranha e incompreensível ojeriza ao conhecimento e à cultura e seu menosprezo à importância da liberdade de expressão.
Ninguém precisa ter formação em psicologia para deduzir a partir dos múltiplos pronunciamentos que, para Lula, conhecimento, cultura e liberdade de expressão não são essenciais nem relevantes.
Têm razão os que reconhecem em Lula um presidente vitorioso quanto à causa que considerava a principal de seu governo - reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida do povo. Independente da paternidade dos programas sociais de seu governo, o fato é que o presidente apostou alto - e eles funcionaram. Durante seu governo, R$ 13,4 bilhões foram gastos para impulsionar 12,7 milhões de famílias a uma condição social melhor.
Estimulou o emprego e alcançou números relevantes: 14 milhões de carteiras foram assinadas em empregos formais durante seus mandatos. Melhorou o salário mínimo e garantiu seu poder de compra; ampliou o acesso ao crédito, com os empréstimos consignados, e com isso tornou reais o que até então era sonho distante para uma imensa classe média, agora a cada dia mais habituada a trocar de carro, viajar ao exterior, comprar produtos de tecnologia, comer fora.
Lula empreendeu mudanças tão profundas quanto relevantes baseadas numa revolução social que, ainda que improvisada, colocou em prática e mostrou-se eficaz. Poderia ser ainda melhor, mas desdenhou dessa possibilidade ao não se esforçar por empreender outra revolução, esta sim, fundamental para muitas gerações: cuidar da educação do povo brasileiro.
Economias dizimadas em guerras, a exemplo da alemã e da japonesa, ensinaram ao mundo que a educação e o conhecimento são capazes de levantar do pó, do sangue, da vergonha e do atraso, populações inteiras. E mantê-las desenvolvidas por gerações.
Nosso presidente agiu ao contrário. Desdenhou de toda e qualquer forma de educação, formal ou informal, de nível superior ou médio. Durante seu governo, fez a apologia da ignorância, quase resgatando o superado mito do “bom selvagem”. Associou conhecimento, educação e cultura com a “elite” que teimou em maldizer, misturando num mesmo saco as oligarquias que historicamente saquearam o Brasil com qualquer sujeito bem estudado e com razoável nível intelectual. Para ele, é tudo farinha do mesmo saco.
Infinitas vezes, Lula colocou-se como exemplo, dizendo que qualquer pessoa - mesmo sem preparo algum - pode ser um bom presidente. Um raciocínio falso, certamente. Tentou converter a absoluta exceção em regra geral.
Difícil imaginar que, no curto prazo, um outro retirante nordestino com escolaridade mínima chegue à Presidência da República. Nada a ver com mérito. O problema é que a trajetória de Lula é única.
Perigosamente, pecou também contra a liberdade de expressão, não obstante ser este o preceito mais fundamental das democracias desenvolvidas, como a americana. Numa medida infeliz, assinou e aprovou o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) que, entre outras coisas, defendia o controle de meios de comunicação pelo governo. O grito da sociedade e da imprensa livre deste País o fez voltar atrás. Mas ele manteve ataques à imprensa e a todos que pensavam diferente dele de maneira intensa, reiterada e incisiva.
Qualquer um que não concordasse com suas ideias ou atitudes, tratou de identificar como opositor - ou, muitas vezes, inimigo ou aliado da “elite”. Esqueceu-se de que a manifestação de uma imprensa livre traz o necessário e salutar contraditório para um governo que pretende fazer o melhor por seu povo.
Colocou-se na posição de santo ungido por Deus ao praticar, milhões de vezes, o mantra do “Nunca antes na história deste país”, como se a história do Brasil se dividisse em “antes” e “depois” de Lula. Para o presidente, conquistas só as suas, avanços só os de seu governo. Numa tacada só, menosprezou todos os que o antecederam e mostrou que, pessoalmente, avalia a história como irrelevante. Importante mesmo, só o que ele fez.
Por fim, perdeu a chance de valorizar o conhecimento sempre que possível.
Ao contrário de presidente de outras nações, que leem e fazem questão de ser vistos entre livros, Lula nunca foi fotografado ao lado de um exemplar de coisa alguma, não foi a uma única peça de teatro durante seu mandato nem defendeu o conhecimento como valor fundamental. Pelo contrário, zombou disso tudo e disse que não precisa estudar, que ler lhe “dá azia”. Pequeno, para um presidente que se fez grande.