Há uma guerra surda na sociedade em função do uso de drogas legais ou ilegais. Além da mutilação psicológica provocada pelo consumo de qualquer substância causadora de dependência no usuário, muitas vezes ocorrem mortes. Dentre todos os entorpecentes, o crack é o mais corrosivo. Destrói física e emocionalmente. Em paralelo, solapa a organização familiar.
O alerta social do perigo dispara quanto ao uso cada vez mais crescente do crack, somente quando ocorre uma tragédia como a da semana passada. Um rapaz de 28 anos matou a própria mãe e o padrasto dele a facadas. A tristeza do fato não se prende apenas às três pessoas. Imagine o Natal passado pelo restante da família.
Pelo depoimento do acusado o ato foi praticado em um momento de alta fissura para usar a droga. A integridade física de qualquer pessoa está constantemente ameaçada no lar ou nas ruas pelos usuários de drogas. Ainda mais para quem chegou ao crack. Esse dependente perde a noção de suas atitudes. Ataca às cegas para conseguir dinheiro. Entretanto, a própria família é que está sempre mais exposta a uma fatalidade. Quem quiser se inteirar da dimensão do problema vivido pela família de um dependente químico, basta se postar por uma meia hora na recepção do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec. O telefone não para de tocar. Do outro lado da linha, quase sempre está uma pessoa desesperada por conseguir uma vaga para tratamento de parente próximo.
Não pense que a procura maior ocorre só para atendimento na área do SUS (Sistema Único de Saúde). Muitas das solicitações para tratamento vêm de convênios médicos. No entanto, faltam vagas. Até a clínica do Allan Kardec, que presta atendimento particular para a recuperação de dependentes, está com lotação esgotada. O primeiro passo para a recuperação de um dependente químico está em ele ter vontade de parar. Só que na maioria das vezes, a droga tira a capacidade do indivíduo tomar livremente essa deliberação. Por isso, a luta contra o crack precisa contar com uma frente ampla de atuação, passando pela administração pública na área de saúde, educação, assistência e segurança até chegar ao seio familiar.
O envolvimento no combate deve começar na compreensão inicial da família. Com empenho, torna-se possível tentar despertar no usuário o interesse em resgatar sua própria capacidade de pensar. Pensando nisso, um grupo de médicos está prestes a iniciar um movimento de conscientização da população para com os problemas advindos do uso de crack.
Quem sabe, a partir do momento em que a maioria se inteire dos efeitos maléficos ocasionados pelo uso de drogas possa, então, nascer uma ação conjunta de combate à proliferação? Pelo menos é isso o que espera um grupo do Centro Médico, composto por profissionais de várias especialidades. Uma reunião para tratar do assunto acontece já no início de janeiro.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br