08 de julho de 2026

“Saí do inferno e revivi”


| Tempo de leitura: 12 min
ESPERANÇA - Carlos César Arcolino, o homem que disse não às drogas e escreveu uma nova trajetória de vida

Carlos César Arcolino, 50, fundou do Narev (Associação Núcleo de Apoio e Recuperação da Vida) em Franca há mais de 20 anos. Depois desta comunidade terapêutica, fundou mais 11 em todo o Brasil - todas fundamentadas em oração, trabalho e disciplina para a recuperação de dependentes químicos. Ajudou nos últimos 26 anos a salvar centenas de vidas - a primeira foi a dele mesmo, que fez uso de álcool, maconha, comprimidos, cocaína e cocaína injetável, entre os 14 e os 24 anos de idade. Se prostituiu, traficou, roubou e ficou preso por oito dias - período a que ele credita sua cura. Saiu da cadeia, voltou para a igreja católica, onde foi acolhido por um grupo de senhoras, passou a frequentar grupos de jovens, trabalhou como voluntário em uma oficina por nove meses para reconquistar a confiança da comunidade. Conheceu Elisabete Comparini com quem se casou e teve quatro filhos. Se descobriu como HIV positivo aos 42 anos, mas numa sequência de exames teve a surpresa de ver o vírus desaparecer. E se tudo isso não fosse uma história suficientemente forte, viu de perto acontecer dois episódios que foram considerados milagres e foram responsáveis por transformar a Beata Gianna Beretta Molla em Santa Gianna, há seis anos. Depois de uma situação muito delicada na gravidez, sua mulher e sua última filha sobreviveram ao parto por, segundo acredita, providência divina. A medicina não conseguiu explicar como a criança sobreviveu sem uma gota de líquido amniótico durante a gestação e como a mãe saiu do coma depois de perder 70% de todo o sangue no parto. Tudo isso aconteceu em 2000. O papa João Paulo II reconheceu os fatos como milagres em 2004.

Carlos César hoje conta sua história em palestras motivacionais e de humanização em empresas no Brasil e no mundo. Através de sua trajetória, ele tenta levar esperança para quem já não acredita mais em si mesmo, seja por problemas pessoais, de saúde ou profissionais. Com este mesmo intuito, lançou o livro Um certo Capitão Neno - uma vitória sobre as drogas, que está na oitava edição e já vendeu cerca de oito mil exemplares. Sobre a situação das drogas em Franca, Arcolino garante que a cidade tem estrutura para tratar dependentes e que não existe demanda aguardando tratamento. “Quem quer se ver livre do vício não precisa sair daqui. Somente na região são mais de 12 clínicas e comunidades terapêuticas”, disse. Para ele, o que falta na cidade e que poderia ser resolvido com a união da sociedade é uma clínica na região com valor mais baixo do que o que costuma ser praticado - cerca de R$ 4 mil por mês. “Usuários de crack, a pior droga do mundo, precisam de atendimento especial, mas às vezes não podem pagar por ele. Se uníssemos nossas forças, resolveríamos o problema”, disse.


Comércio da Franca - Você fundou o Narev (Associação Núcleo de Apoio e Recuperação da Vida) nos anos 80 depois de ter sido usuário de drogas por 10 anos. Ficou oito anos lá e deixou o Núcleo há 12. O que o fez sair?
Carlos César Arcolino -
Usei minha própria experiência para fundar o Narev. Me capacitei e me organizei para isso com uma boa diretoria, espaço físico decente e coloquei em prática um programa terapêutico adequado e que eu acredito muito, fundamentado em oração, trabalho e disciplina, mas em um dado momento percebi que ele já podia andar sozinho. Saí de lá para me dedicar ao Amor Exigente, um grupo que está presente em todo o Brasil e que cuida dos pais do dependente químico e da família dele. Porque, enquanto o paciente está internado, alguém precisa cuidar de quem ficou na sociedade para que, quando ele voltar, encontre uma casa renovada e preparada para recebê-lo. Passei a me dedicar também a palestras e consultorias em empresas no Brasil e no mundo.

Comércio - Qual a importância da família na recuperação e no tratamento de um doente?
Carlos César Arcolino -
É 100%, mas a família que tem um drogado em casa acaba adoecendo com ele, então também precisa de ajuda. O olhar tem que ser para os dois lados da questão, porque são os pais que percebem os primeiros sinais e oferecem ajuda a tempo. É preciso ter coragem para assumir um dependente químico em casa e para pedir ajuda a tempo.

Comércio - Mas o que fazer diante dos primeiros sinais?
Carlos César Arcolino -
A primeira coisa é o diálogo. Sentar para conversar e entender o que está acontecendo. Algumas pessoas rezam apenas e fecham os olhos porque não aceitam. É preciso enxergar o problema, aceitá-lo e buscar ajuda. Esse é o caminho e, nesse sentido, o Amor Exigente é uma boa opção porque orienta os pais para o que deve ser feito.

Comércio - O Rio de Janeiro passou por um problema grande em decorrência das drogas e dos traficantes há algumas semanas. Na sua opinião, qual a melhor solução para conter quem vende a droga?
Carlos César Arcolino -
A polícia do Rio de Janeiro tomou os morros, mas o problema não está exclusivamente lá. Está lá embaixo, com os usuários que financiam a compra daquelas toneladas de drogas e armas que foram encontradas. Deles, ninguém fala nada. Quem destruiu o Rio não foi o traficante apenas, foi o dependente e este vai continuar usando. Tão importante quanto dominar o morro é tratar o usuário. Só existe traficante porque tem quem compra.

Comércio - É cada vez menor a idade média em que jovens conhecem as drogas. Segundo uma pesquisa realizada pela Secretária de Saúde estadual no ano passado 40% dos dependentes iniciaram o uso de drogas entre os 7 e os 11 anos. Diante disso, como identificar um usuário em casa, mesmo tão novo?
Carlos César Arcolino -
Todo dependente dá um grito de socorro inconsciente, por isso é preciso prestar atenção nos sinais como a mudança de comportamento, indisciplina, perda do respeito com os pais, familiares e professores, falta de estímulo esportivo (quando praticava alguma atividade), concentração na escola e a mudança de amizades.

Comércio - Qual o perfil do dependente químico em Franca?
Carlos César Arcolino -
Não dá para traçar um perfil somente de Franca. Em todo lugar eles têm características semelhantes, como autoestima baixa, falta de personalidade, insegurança, frustração profissional ou amorosa, carência afetiva, comparação individual e pessoal, ausência de projetos de vida e de sonhos, vulnerabilidade e autossuficiência.

Comércio - Você perdeu os pais cedo, a mãe com 4 anos, o pai com 8. Foi criado pela sua avô e suas tias. Esse histórico o fez buscar a droga?
Carlos César Arcolino -
Meus pais morreram, mas eu tinha uma família constituída e muito estruturada que meu deu amor e educação. De seis irmãos, eu fui o único que deu problema. Depois de anos de terapia, sei falar exatamente o que me fez procurar a droga: falta de personalidade para ter coragem de falar não, carência pela perda dos meus pais, timidez e frustração profissional porque eu queria ser jogador de futebol. É uma somatória que me fez fugir de mim mesmo.

Comércio - Como você conheceu as drogas?
Carlos César Arcolino -
Eu tinha 14 anos e foi através da oferta de colegas. Comecei no álcool e depois fui para a maconha, que é a falsa inofensiva. Depois veio o haxixe, os comprimidos, o glucoenergan (uma droga de efeito dopante), a cocaína e a cocaína injetável. Quando cheguei nessa última, já tinha me perdido completamente. Compartilhava seringa, roubava, traficava e me prostituía. Eu abandonei tudo e vivi um inferno.

Comércio - Você falou sobre roubo e prostituição. Como foi isso?
Carlos César Arcolino -
Comecei a andar com pessoas que roubavam e mais uma vez a falta de coragem e personalidade falou mais alto. Escolhíamos uma empresa, os caras entravam e eu ficava vigiando. Roubávamos folhas de cheque, eu preenchia e a gente passava as folhas. O dinheiro eu comprava em drogas. Foi por isso que eu fui preso. A prostituição também aconteceu, mas não fazia por prazer. Na verdade, eu buscava no corpo de uma mulher o que faltava em mim.

Comércio - Você ficou oito dias preso e sozinho em uma cela. Que efeito esse episódio teve sobre você?
Carlos César Arcolino -
Foi um ponto culminante, porque se eu tivesse ficado com outras pessoas, eu teria que mostrar para eles a pessoa que eu não era: a que traficava e que fazia e acontecia, mas fiquei sozinho e tive tempo para analisar a minha vida até aquele momento. Eu tive oportunidade de ter um estado de lucidez de cinco dias sem drogas, coisa que há anos eu não tinha. Em uma noite escura eu estava sentado no chão frio e tive a presença de Deus na minha frente.

Comércio - Depois disso foi que você foi para a igreja e passou a dar seu testemunho de vida, inclusive com um milagre que fez a Beata Gianna se tornar santa pelo Papa João Paulo II. Como foi essa presença?
Carlos César Arcolino -
Eu escutei uma voz me pedindo para contar minha história de vida. Naquele dia saí do inferno que era a minha vida e revivi. Fiz uma análise da minha vida até ali e chorava igual criança. Sei que não foi uma alucinação ou algo causado pela abstinência. Foi meu momento com Deus. Naquela hora descobri que o maior obstáculo para a recuperação seria o orgulho e autossuficiência: eu sei, eu coordeno, eu tomo conta. Quebrei isso, dei lugar a espiritualidade.

Comércio - Você saiu da prisão e não foi para nenhuma clínica. Foi para casa e se curou sem remédios e sem a ajuda de profissionais. Como foi o retorno?
Carlos César Arcolino -
Voltar é difícil porque a sociedade o julga e você não está preparado para isso, mas tem que enfrentar. Falar não para as amizades ruins é mais difícil do que falar não para a cocaína, mas eu me afastei completamente. Trabalhei nove meses de graça para reconquistar a confiança das pessoas. O cara que está preso fala que a sociedade fecha as portas para ele, mas é ele que se fecha, então precisa reabrir a porta sozinho. Ia de casa para o trabalho e do trabalho para a igreja participar de um grupo de oração com senhoras. Fui conhecendo outros grupos, outros jovens e a minha esposa. Aí começou a trajetória nova que hoje tem 26 anos.

Comércio - Você fala muito de espiritualidade e orações. Elas são, inclusive, uma das bases do tripé que sustenta o Narev, que você ajudou a fundar. Por que acredita nisso?
Carlos César Arcolino -
Uma família com raízes espirituais fortes dificilmente vai ser atingida pelas drogas e se for, vai ter força para sair dela. Há quem diga que quem leva à igreja não busca na cadeia, e eu credito nisso. Acredito também que a espiritualidade precisa ser alimentada diariamente, tal qual a bateria de um celular, porque ela lhe dá condição de superar as adversidades da vida.

Comércio - Você usa sua trajetória para levar humanização para as empresas e esperança às pessoas nas palestras. Como contextualizar as drogas, por exemplo, com uma crise dentro de uma indústria?
Carlos César Arcolino -
Já estive nas maiores empresas do Brasil e do mundo dando palestras motivacionais e de humanização. Nas grandes de Franca já passei por todas. Eu conto a minha história não no sentido de droga apenas, mas no de superação de um problema que nem sempre é a droga. O problema pode ser autoestima baixa, descrença e desmotivação mesmo. Através do meu histórico, amenizo o que as pessoas acreditam não ter solução, como uma grande meta de venda e até uma crise financeira.

Comércio - Em meio a essa história de superação surgiu o livro Um certo capitão Neno, que está na oitava edição, com quase dez mil exemplares vendidos. Qual o propósito de publicar sua história de vida?
Carlos César Arcolino -
Eu já era palestrante, ia para todo o Brasil e as pessoas pediam o livro porque sempre conheciam alguém que precisava ouvir aquilo que eu estava falando. O livro pode chegar onde eu não consigo, onde eu não estou e ele conta uma história real, de um cara que perdeu o pai e a mãe, usou drogas, roubou, se prostituiu, foi preso e conseguiu se recuperar. Esse mesmo cara tem quatro exames de HIV positivo e dois negativos, viu um milagre e está ali, contando que é possível superar qualquer obstáculo.

Comércio - Quatro exames de HIV positivos e dois negativos. Como a medicina explica isso?
Carlos César Arcolino -
Eu tinha 42 anos, estava casado e tinha três filhos. Fazia 18 anos que eu estava sóbrio e fui fazer uma bateria de exames de rotina. O primeiro e o segundo deram positivo para HIV, o terceiro deu falso positivo, que é erro de laboratório. O teste final foi feito em Ribeirão Preto, no Hospital das Clínicas e o resultado foi que eu tinha o vírus que poderia desencadear (a doença) ou não. Se naquela época eu não tivesse a espiritualidade alimentada tinha desistido de tudo, mas convivi bem com isso. Um ano depois, fiz novamente o exame no Laboratório Lavoisier, em São Paulo, e para espanto dos médicos deu negativo. A ciência fala que a minha carga viral era baixa e vários fatores podem ter contribuído para o vírus sumir. Eu não sei se foi milagre e eu não fiquei preso nisso. Hoje penso em como eu posso usar esses exames para alertar as pessoas que o uso de drogas tem consequências.

Comércio - Toda essa mudança que você vem experimentando ao longo dos últimos anos foi coroada com um milagre há 10 anos, o milagre de Santa Gianna. Como é participar de uma ação comprovadamente divina?
Carlos César Arcolino -
Eu e minha esposa tínhamos três filhos e ela estava grávida do quarto, com 16 semanas. A bolsa estourou e neste caso a medicina é obrigada a sugerir tirar o feto, porque eles acreditam que a gestação é imprópria. Nós dissemos não ao aborto, mesmo com os médicos afirmando que o bebê morreria e que minha mulher corria risco, porque estava com o útero exposto e sem líquido amniótico. Rezamos muito e pedimos a intercessão da Beata Gianna. A Bete (mulher de Carlos) ficou de repouso absoluto durante três meses e ninguém explicava como nossa filha ainda estava viva, mas nós sabíamos o porquê. Nosso bebê nasceu perfeito e hoje está com 10 anos. Minha esposa é que ficou em um quadro complicado no parto, porque o útero e a placenta estavam grudados e ela perdeu 70% do sangue. A medicina não explicava como a gestação tinha acontecido sem nenhuma gota de líquido amniótico e, diante disso, nós mandamos os documentos para o Vaticano, que estudou o caso por quatro anos e entendeu que teve providência divina para mãe e filha terem vida.